VIDA LOUCA, VIDA BREVE, por Regina Behar.

BREVIDADES

Texto crítico, na íntegra,  escrito pela historiadora Regina Behar sobre Brevidades

Entramos no cenário e nos acomodamos no quarto de Eleusa. Ela aguarda. No meio da arena uma pequena cama, uma mesa redonda, uma penteadeira. Eleusa saboreia seu chá como se não nos visse. Depois olha em volta, pequenos goles, oferece biscoitos e começa o monólogo. Fala dos tempos áureos nos quais o chá era servido em grande estilo, com “biscoitos de nata, pães de minutos… as brevidades”. Rememora o tempo passado e percebe o choque do presente: o lugar não é nomeado, mas, é lá que descartam os alienados. Renega sua vida ali, onde pessoas sem consciência vagam sem saber quem são. O tempo passa e eles pioram, afirma Eleusa, ficam sem modos, agressivos, não se lembram de qualquer regra de etiqueta, e nem sequer de higiene. Aquele não é seu lugar. Ela despreza aquela gente e busca nossa cumplicidade.

Eleusa foi grande dama do teatro, tinha fama, fortuna, empregados, amigos, amantes. Passeiam em sua memória de modo recorrente, três personagens, Marta, Aninha e Zizo. Eles estarão no palco com ela, referências de base para sua história, para sua identidade. Eleusa se dirige aos convidados: “Bem vindos ao cemitério dos vivos” . Finalmente o lugar é nomeado. Ela reclama da condição de prisioneira e de cobaia. Resiste. Resiste porque nega aquela condição de morte em vida e agarra-se, com todas as forças, aos suportes de memória que a mantêm sendo quem é. Marta, Zizo, Aninha, fatos e situações. Ela ainda é pessoa, sabe disso, precisa disso, ancora-se nessa consciência que persiste. Eleusa não aceita se render à inexorabilidade da condição humana abominada que percebe nos outros.

Mas, repentinamente, esquece: “você viu minha bolsa? Não era isso que eu queria dizer…”, “quem são vocês, amigos ou parentes?” Já se podem vislumbrar em Eleusa os momentos de agressividade quando pergunta o que estamos fazendo aqui, o que estamos olhando, quando nos manda embora, quando seu rosto se contrai e seus olhos fulminam. Depois ela está de volta, leva alguém à mesa do chá, procura Marta e se ancora de novo no mundo dos vivos. No fim do espetáculo é essa mesma Marta, (a amiga, a inimiga, a menosprezada, a cada identificação no público) que lhe permite o grande final, sim, ela deve representar o monólogo: A morte de Julieta prenuncia a morte em vida de Eleusa. Fim do espetáculo.

*

É isso. Brevidades é o produto do grande encontro entre o texto sensível de Márcio Marciano e a maravilhosa atuação de Zezita Matos e vice-versa. Pena que foi tão breve. A Casa de Cultura Cia da Terra, no Centro Histórico de João Pessoa tem nos propiciado o espaço para o trabalho de um dos melhores grupos teatrais paraibanos contemporâneos, o Coletivo Alfenim, dirigido por Marcio Marciano e, ao falar desse monólogo, é impossível não demarcar algumas questões em relação aos textos e espetáculos do Grupo. Assisti às peças encenadas pelo Coletivo Alfenim, todas produzidas na tradição do teatro brechtiano, coletivamente. São textos instigantes, engajados, que estimulam a criticidade, provocam dor, incomodam, mexem com consciências adormecidas, sob a batuta competente de Márcio. Ele tira o espectador da zona de conforto literal e emocionalmente. Mas nos espetáculos anteriores – Quebra-Quilos (2007), Milagre Brasileiro (2010) e O deus da Fortuna (2011) – temos personagens que respondem a conjunturas políticas, teatro brechtiano por excelência. Eles estão em cena para revelar a sociedade, suas mazelas, e mais que isso, provocar o choque no espectador e a ruptura com a passividade de sua posição no mundo social e no palco; palco aqui é uma referência metafórica, uma vez que estamos todos imersos na cena, como na vida.

Em Brevidades o método é o mesmo, entretanto, o centro muda de fora para dentro, da conjuntura para a subjetividade de uma personagem, Eleusa, uma velha atriz de teatro, vivendo no ostracismo, em meio ao processo de dissolução provocado pelo mal de Alzheimer. Longe da família, que não reconhece, internada numa clinica, nos leva a refletir sobre a condição humana no limite, aquela condição em que podemos viver estando já mortos. É um texto intimista, porque mesmo trazendo elementos das lutas sociais, por exemplo, o faz através dessa subjetividade em condição de fragilidade. Razão pela qual parece difícil sentir raiva do preconceito racial e de classe que Eleusa carrega quando fala da empregada, quando fala da gente simplória de quem consegue arrancar todas as confissões, afinal, ela é uma frágil senhora vítima do adoecimento. Ficamos, às vezes, quase penalizados com ela. Quase! Deixar as pessoas quase com pena e quase com raiva é de uma dialética dos infernos!

Vejo nesse texto a saída de uma zona de conforto que deu a tônica da produção do Alfenim, marcada pela criação coletiva dos textos, temas políticos como eixo, contextos mais centrais que personagens. O monólogo estabeleceu uma ruptura com essa continuidade e, nessa descontinuidade, o enfrentamento de um novo desafio para o próprio dramaturgo: ousar sua autoria pessoal, colocar a alma no negócio, correr o risco de não ser o coletivo. Considero pessoalmente, que essa saída da zona de conforto revelou outra faceta desse diretor/teatrólogo genial. Produzir um texto a altura de Zezita Matos é um desafio de tamanho considerável e ele deu conta dessa façanha, mostrando sua própria altura e maturidade artística. Uma das questões a destacar é que Márcio conseguiu acessar a dor a partir de um ponto de vista feminino, provando que Carl Jung estava correto ao afirmar que todo homem possui um arquétipo feminino internalizado (sua anima), como toda mulher possui um arquétipo masculino (seu animus). Então é preciso dizer que a anima de Márcio emergiu poderosamente, pura arte narrativa da melhor qualidade teatral. Outra questão que envolve a constituição desse texto é: como tratar de um tema tão delicado sem cair na armadilha da piedade que nos levaria a ver apenas aquela doce velhinha que oferece chá, enquanto ainda se lembra? Márcio faz isso, evita a armadilha, mostrando a criatura em sua humanidade, suas misérias, seus preconceitos, seu ar de aristocrata superior, que recorda as opressões praticadas contra a empregada Aninha como se fosse parte da sua própria bondade. Eleusa é parte do universo social coronelístico introjetado, arraigado na longa duração de nossa herança colonial e escravista. Márcio mostra através dessa personagem em monólogo que a inconsciência dos ricos é um mal de Alzheimer. Eles não lembram que exploram, eles esquecem que o outro é humano e sofre as mesmas dores; eles percebem muito mais a perda de seus anéis do que a mutilação que causam nos dedos do outro, lamentam muito quando perdem seus privilégios, quando a vida lhes revela o chão comum da humana mortalidade: eles também ficam velhos como os pobres, eles adoecem (Aninha também sofre a maldição do Alzheimer) sem quem o dinheiro possa protegê-los, eles até mesmo morrem porque o anjo da morte é incorruptível e estende seu manto sobre todos. Descobrem, no fim da vida, no ocaso da fama, no processo inexorável em que nosso pai Cronos devora todos os seus filhos, que para eles um dia acaba o “tempo das brevidades”.

Acho que Márcio consegue a medida certa nessa dialética porque continua incomodando, tocando agora numa ferida que está para além do político e do social, embora evoque reflexões sobre tratamento humanitário, políticas de saúde, entre outros. Mas o que Brevidades deixou mesmo, pelo menos para mim, além de não ter sentido qualquer pena de Eleusa (em parte mérito do texto, em parte mérito da magistral interpretação de Zezita) foi sentir o incômodo da presença de um sentimento que cotidianamente exorcizamos, o grande medo de nossa condição humana: Não seremos mais nós mesmos se a vida nos saudar com a maldição “Bem vindos ao cemitério dos vivos”! Como gosto de cinema, lembrei-me de Amarelo Manga, um filme em que o pernambucano Cláudio Assis explora poeticamente as dimensões dessa condição remetendo para a cor que antecede o apodrecimento das coisas, a cor que antecede a morte é amarelo manga. Márcio e Zezita me encheram de orgulho pela arte e de medo, sentimento humano que não sentia faz tempo.

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¹ A fala da personagem Eleusa é uma citação do livro de memórias de Lima Barreto O Cemitério dos Vivos, no qual o Autor rememora os dias de internação no Hospício Nacional (o Casarão da Praia Vermelha – RJ). O referido livro é dividido em duas partes: na primeira, Lima Barreto faz um diário de sua estada no Casarão. Na segunda, esboça um projeto de ficcionalização dessa experiência. A ideia do relato de Eleusa na forma de um monólogo para o teatro surgiu da leitura dessa obra. (Nota do dramaturgo Márcio Marciano no original de Brevidades).

* Regina Behar é historiadora da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

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