Tempo de incômodo, por George Holanda.

mascaras

Ensaio sobre o humanitismo é um experimento do Coletivo de Teatro Alfenim, da Paraíba. Esse trabalho integrará o espetáculo Memórias de um cão, que estreará ano que vem e é fruto de uma pesquisa do grupo acerca da obra Quincas Borba, de Machado de Assis. Apresentar um experimento em outra cidade (Natal) que não a sua, ainda mais em um festival, pode ser considerado um ato de coragem e desprendimento com o próprio trabalho. O Alfenim possui uma história de grande proximidade com um teatro brechtiano, tendo o diretor e dramaturgo Márcio Marciano como catalisador desse movimento. E, ao longo dos seus oito anos de existência, o grupo vem se mantendo coerente nesta linha de pesquisa. Dessa vez, o grupo se aventura pela obra de Machado de Assis, realizando um diálogo entre ele e Brecht.

O grupo mantém firme seu posicionamento crítico diante de um sistema de produção capitalista e seus reflexos sociais, e encontra em Machado de Assis um cúmplice de ideias, ainda que este trabalhe, de certa forma, num ambiente mais íntimo e psicológico. Dessa vez, o coletivo encontra uma possibilidade de variação do seu discurso, ainda que mantenha os mesmo parâmetros, ao contar a história de Rubião, homem simples que fica rico graças à herança de um benfeitor, Quincas Borba, dado a filósofo e criador do “humanitismo”, e que possui um cão (personagem importante na construção das metáforas dramatúrgicas). Rico, Rubião passa a conviver nas altas rodas da sociedade e a ser vítima da ambição e inveja delas, chegando ao ponto de começar a enlouquecer.

Entretanto, todo esse aparato teórico-literário não se sustentaria se não tivesse na cena seu respaldo. E se, de início, poderia haver um receio do público em ir assistir a uma obra em um estágio ainda prematuro, tal sentimento desaparece com sua apresentação, pois o grupo mostra toda sua maturidade ao expor um trabalho pautado em uma sólida base literária, em coerentes referências e em técnica segura.

Não se enxerga ansiedade na cena experimental do Alfenim, ainda que alguns elementos ainda possam ser amadurecidos até a estreia. Sua cena possui um tempo próprio, o que alguns podem entender por mais lento, mas este se revela um forte efeito de desconforto no público, não se subjugando a este, mas o desafiando, e apresentando um ritmo “mais real”, sem artifícios, mais “cru”. E isso gera um vácuo entre cada fala, entre cada mudança de cena, nos deixando numa solidão, num abandono, sem que possamos encontrar um alívio diante desse material, sem que possamos abrandar aquela narrativa de ruína. Esse tempo “mais lento” parece nos dizer “veja, sinta, pense”. E, incomodados, parecemos experimentar o desconforto de Rubião naquele ambiente de luxo e hostilidade dissimulada, ainda que, curiosamente, a simplicidade do cenário abdique de qualquer elemento nesse sentido.

Sobra sobriedade ao experimento, e este caminha para um ajuste sutil antes da sua estreia, afastando qualquer possível excesso. O trabalho desafia, afronta, exige respeito e nos desarma, o que pode ser uma caminho fácil para sua rejeição, afinal, mergulhar neste incômodo interior não é o desejo de todos, mas faz parte do discurso político do grupo, assim como de Machado de Assis. O resultado desse estágio do processo se deve à força e à maturidade artística do coletivo. E ao fato de se encontrar muito à vontade em seu fazer teatral, o que possibilita essa segura proximidade com Machado de Assis, de modo que o Alfenim experimenta uma sutil e significativa curvatura na sua trajetória, já consciente.

* Texto produzido no âmbito do Laboratório de Crítica do Festival O Mundo Inteiro É um Palco 2014.. George Holanda é ator, passou por vários núcleos artísticos de Natal, integra o Grupo Arkhétypos de Teatro e desenvolve pesquisa de clown. Para ler outras críticas escritas durante o festival, acesse:

http://www.omundointeiroeumpalco.com/#!notcias/cdep

Deixe uma resposta

Responda para enviar * Time limit is exhausted. Please reload the CAPTCHA.

                 
%d blogueiros gostam disto: