• O fazer teatral como exercício diário para a construção de uma utopia* – Márcio Marciano

    • Porto Iracema das Artes
      *Texto de Márcio Marciano para oficina “Exercícios para uma cena dialética” no Porto Iracema das Artes (Fortaleza/ março de 2017)

       

      Se vocês me permitem, vou começar dizendo que o título da minha fala, “O fazer teatral como exercício diário para a construção de uma utopia” está fora do lugar. Basta uma ligeira leitura do noticiário para reforçar o ponto de vista de que o fazer teatral não tem a mínima chance de construção de uma utopia. Esta afirmação é muito pessimista, mas pode ser um bom começo de discussão sobre o que podemos fazer em tempos de descrença e desesperança como os atuais. Para começar, precisamos estar de acordo sobre o que é o fazer teatral e sobre o que entendemos por utopia.

      Com relação ao fazer teatral, parece óbvio que se trata do cotidiano na sala de ensaios: o modo como treinamos o corpo e a mente, o aprendizado de técnicas e competências, o estudo da história, da economia, das ciências e das artes. Assim como o estudo do teatro, em seus diversos gêneros e especialidades etc. É também o modo como conduzimos o processo de pesquisa para a montagem de uma peça. Mas, sobretudo, é a escolha que faz um determinado coletivo sobre a forma mais produtiva de interlocução com a sociedade. Tudo isso parece elementar e comum à maioria dos coletivos teatrais na atualidade. Guardando-se a diferença de ênfase em cada um desses fundamentos, é do cotidiano na sala de ensaios que surge o resultado que será compartilhado com o público.

      Quanto ao objetivo deste fazer teatral, naturalmente podem surgir divergências. Há aqueles que perseguem a inovação da linguagem, há outros mais interessados em tratar os grandes temas da condição humana, ainda que menos preocupados com as questões formais. Há aqueles mais interessados na prospecção da própria subjetividade e aqueles que almejam reproduzir os clássicos. Há os que objetivam abertamente os temas sociais e políticos, e aqueles que preferem temas de ordem existencial. Há os que buscam pautas prementes da contemporaneidade, como a discussão de gênero, crença, raça etc. e aqueles que preferem reativar a memória pessoal ou de um determinado grupo. Há os que se preocupam com o recorte histórico e os que preferem leituras mais metafísicas ou transcendentes. Há os que preferem apenas fazer rir e aqueles que se esforçam por fazer chorar. Há por fim, aqueles que tentam uma sobreposição ou colagem, uma paródia ou síntese de todos os objetivos antes mencionados.

      Contudo, apesar da infinita variedade de temas e de formas de abordagem, podemos afirmar que há entre todos esses fazeres teatrais o objetivo comum de comunicação com o público de seu tempo. Nesse sentido, podemos dizer que uma das principais características do fazer teatral é sua capacidade de realizar experimentos cênicos ou espetáculos teatrais que se comportem como uma espécie de crônica de seu momento histórico.

      Uma rápida leitura dos clássicos da dramaturgia universal, ou a observação de documentos fotográficos e videográficos de espetáculos do passado podem comprovar a vocação do Teatro para o testemunho das contradições, dilemas, perplexidades e esperanças de uma época. Essa parece ser a grande qualidade das Artes Cênicas, seu poder de retratar poeticamente o que existe seja de mais abjeto ou de mais sublime nas relações afetivas, interpessoais e sociais entre os homens de seu tempo.

      Se já nos entendemos minimamente sobre a natureza geral e o propósito último do fazer teatral – que vão muito além da veleidade artística de “estar em cena” – precisamos agora avançar sobre o conceito de utopia. Bem antes de Thomas More cunhar o termo, o filósofo Platão, já idealizava em sua República as condições necessárias para incorporar à realidade histórica a ideia do bem e da justiça. Não podemos esquecer que ele bane os poetas e rejeita a arte mimética por sua imperfeição e por situar-se “três graus distante da natureza”. Sem entrar no mérito da questão, é importante ressaltar que a ideia de utopia é anterior ao próprio termo. Refere-se a um sistema de valores ideal, irrealizável, mas que deve ser perseguido.

      O termo utopia vem do grego e significa “o não-lugar” ou “lugar que não existe”. De modo geral, podemos utilizar o termo utopia para denominar projetos imaginários de sociedades perfeitas, de acordo com princípios filosóficos nos quais acreditamos. Um conjunto de proposições que aspiram à transformação da ordem social existente, de acordo com os interesses de determinados grupos ou classes sociais. O problema começa quando nos perguntamos de que modo o fazer teatral pode enfrentar a complexidade da realidade social existente. De que maneira um grupo de pessoas fechadas numa sala de ensaios pode produzir questionamentos acerca das contradições que a atualidade nos apresenta?

      Nessa perspectiva, parece que o pensamento utópico se constitui como fuga da realidade, como tangenciamento da matéria histórica, como escape ilusionista. Parafraseando Platão, a utopia surge não apenas como algo “três vezes distante da natureza”, como também algo três vezes distante da história. A atualidade parece não apenas negar a alternativa ao pensamento utópico, como sugere ser inevitável o extravio rumo à distopia. Não é à toa que a palavra “distopia” está na moda. Há inúmeros exemplos na literatura, no cinema e no próprio teatro que comprovam a incapacidade contemporânea de sonhar um mundo habitável para todos.

      Só para ficar no âmbito dos filmes mais recentes e conhecidos: Guerra dos Mundos (1953/2015); O Planeta dos Macacos (1968/2017); Mad Max (1979/2015); Blade Runner (1982); O Exterminador do Futuro (1991); Clube da Luta (1999); Matrix (1999); e as trilogias Jogos Vorazes (2014); Divergente (2014); e Correr ou Morrer (2014).

      O que essas obras apontam? Grosso modo, são filmes que se passam em um futuro imaginado ou em uma realidade paralela. Procuram fazer uma crítica social, mas com forte teor moralizante. A distopia é engendrada pela ação ou pela omissão humanas. O indivíduo é presa de um sistema generalizante, totalmente controlado. Há uma supremacia da tecnologia, ou dos efeitos de sua destruição. Tudo o que é coletivo é estúpido ou desumanizado, o poder está nas mãos de uma elite que detém o conhecimento. O controle é realizado por meio da violência que é sistêmica e banalizada.

      Na essência, esses filmes reproduzem a estrutura das moralidades medievais, com a diferença de que não há espaço para a redenção divina. O indivíduo sofre uma dupla violação: ao mesmo tempo em que sua subjetividade é esfacelada, sua autonomia de sujeito é reduzida ao reflexo instintivo da sobrevivência.

      Se retornarmos ao noticiário atual, veremos que a semelhança com os fatos não é mera coincidência. Diante desse quadro, não soa ingênuo pensar na utopia? Pensar numa sociedade menos injusta e mais generosa?

      Pois é justamente aí que o fazer teatral pode dar uma importante contribuição. Não no sentido da proposição de uma sociedade ideal, mas como revelação e denúncia dos mecanismos de dominação de classe da sociedade atual. Se utopia significa o “lugar que não existe”, é essencialmente deste “não-lugar” que podemos lançar nosso olhar inconformado sobre as contradições da atualidade, com vista à construção de um pensamento crítico sobre as relações humanas, seja no campo existencial e afetivo, seja na esfera social e política.

      Não podemos perder de vista que o teatro é uma arte pública. É a partir do diálogo produtivo entre cena e plateia que podemos construir um pensamento ao mesmo tempo crítico e utópico capaz de oferecer resistência à lógica desumanizadora do capital e da forma mercadoria. Deste modo, o fazer teatral exige o comprometimento coletivo de seus agentes. A incorporação produtiva de toda e qualquer diferença, a horizontalização de todas as relações humanas e a resistência permanente ao pensamento hegemônico. Nesse sentido, o legítimo fazer teatral é ele mesmo utópico, não porque sonha com mundos impossíveis e dá as costas à realidade. Mas justamente ao contrário, porque em sua lide cotidiana inventa alternativas de convívio à brutalização e objetualização das relações sociais. Porque invoca em seu favor a imaginação humana contra a lógica avassaladora do capital e inventa cotidianamente formas de resistência à mercantilização da vida.

      Antes de passar a palavra para vocês, gostaria de encerrar minha fala com uma citação do dramaturgo alemão Bertolt Brecht, que foi um incansável pensador do fazer teatral. Ele dizia: “No teatro, não devemos ter a pretensão de mostrar a vida como ela é. Tampouco como gostaríamos que ela fosse. No teatro, temos o dever de mostrar a vida como ela não deveria ser”.

  • I LABORATÓRIO PARAIBANO DE DRAMATURGIA CONTEMPORÂNEA


    O I Laboratório Paraibano de Dramaturgia Contemporânea, ministrado por Márcio Marciano (diretor e dramaturgo do Alfenim) está ocorrendo todas as terças e quintas na UFPB. Com atividades interativas e exercícios de escrita dramatúrgica propostos por dramaturgos consagrados, a exemplo de José Sanchis Sinisterra, Márcio Marciano estabelece uma metodologia de produção textual que parte da ação prática para a reflexiva.Na primeira semana do curso, os novos escritores já deram início à produção dramatúrgica com a escrita de uma cena, resultante da troca de personagens e situações de crise elaboradas pelos próprios participantes do laboratório. Após a primeira atividade, o laboratório segue com o objetivo de fomentar a escrita local do texto teatral, preservando a autonomia do tema e estilo dos novos dramaturgos e dramaturgas.

    Durante o laboratório, alguns teóricos e/ou autores da dramaturgia farão debates abertos ao público. Os debates serão divulgados aqui no blog e na nossa página do facebook “Coletivo de Teatro Alfenim”. No final do curso, serão selecionados cinco textos para a realização da I Mostra Paraibana de Dramaturgia Contemporânea, que consiste na leitura encenada desses textos por grupos de teatro da Paraíba. A I Mostra Paraibana de Dramaturgia Contemporânea terá início no segundo semestre de 2012.


  • LISTA DE SELECIONADOS PARA O LABORATÓRIO DE DRAMATURGIA

    O Coletivo de Teatro Alfenim divulga a lista, em ordem alfabética, dos selecionados para o I Laboratório de Dramaturgia Paraibana:
    Alan Monteiro

    Astier Basílio

    Bertrand Araújo
    Chavannes Procopio

    Erick de Almeida

    Gil Hollanda 
    Ilane Thó

    João Fernandes 

    Mauricio Barbosa
    Rafael Guedes
    Ramon Benício
    Robert Sodré
    Rosário Moura
    Tetê Cavalcanti
    Tiago Herculano da Silva
    Yluska Laisy 


    Bom laboratório a todos e todas!
  • I MOSTRA PARAIBANA DE DRAMATURGIA CONTEMPORÂNEA

    EM BUSCA DA NOVA DRAMATURGIA PARAIBANA
    Dramaturgo Márcio Marciano realiza curso gratuito de dramaturgia contemporânea

    O projeto Teatro Alfenim em Repertório, contemplado com o Prêmio FUNARTE Myriam Muniz de Teatro 2011/2012, inicia na próxima segunda-feira (19) o período de inscrição para o 1º Laboratório Paraibano de Dramaturgia Contemporânea. As inscrições, gratuitas, seguem até dia 30 de março (sexta-feira) apenas por email: teatroalfenim@gmail.com. Os interessados devem enviar uma carta de intenção e um breve currículo. O resultado será divulgado no dia seis de abril (sexta- feira).

    Aberto a dramaturgos, escritores, estudantes de teatro e interessados, o laboratório tem duração de dois meses, de 10 de abril (terça-feira) a 31 de maio (quinta-feira). As aulas serão nas terças e quintas-feiras, das 19h às 22h, em local a ser informado pela produção do Coletivo de Teatro Alfenim.

    Em meio à temporada do espetáculo “Milagre Brasileiro”- que segue em cartaz na Casa de Cultura Cia da Terra, aos sábados (20h) e domingos (17h) até 22 de abril – o coletivo teatral prepara-se para iniciar esta ação prevista no prêmio conquistado. Segundo o encenador e dramaturgo Márcio Marciano, que irá ministrar o curso, a idéia de propor um curso de dramaturgia contemporânea, surgiu da falta de acesso aos autores locais.

    “Há poucos autores em atividade e na maior parte dos casos, seus textos não vêm a público”, observa o dramaturgo. Diante disso, o laboratório terá como missão fomentar a pesquisa e a criação de novos textos teatrais que utilizem prioritariamente como tema assuntos relativos à sociabilidade paraibana contemporânea, como Márcio explica a seguir.

    “Através do estudo sistemático de textos teóricos e da dramaturgia clássica e contemporânea, bem como do exercício de escritura de novas cenas, o Laboratório poderá contribuir efetivamente para o surgimento de novos Autores interessados em formular e discutir esteticamente os assuntos que pautam a sociedade paraibana hoje”, diz.

    Durante o laboratório, os alunos participarão de encontros abertos ao público com teóricos da dramaturgia e autores paraibanos, de forma a estreitar as relações dos jovens dramaturgos com a produção e a pesquisa em dramaturgia.


    I MOSTRA PARAIBANA DE DRAMATURGIA CONTEMPORÂNEA

    Serão selecionados 05 (cinco) textos produzidos pelos participantes durante o laboratório para serem apresentados ao público de João Pessoa na forma de “leitura encenada”.

    Serão convidados grupos que atuam em João Pessoa para participarem da I Mostra Paraibana de Dramaturgia Contemporânea, a ser realizada no segundo semestre. “Nessa ocasião contaremos com a presença de pesquisadores e autores da dramaturgia contemporânea nacional, que participarão da Mostra como debatedores, encarregados de comentar criticamente os textos apresentados”, acrescenta Márcio Marciano.

    Numa segunda fase do projeto, o produto desses debates abertos ao público será documentado em um “Caderno de Dramaturgia”, que também prevê a edição dos textos apresentados na Mostra. Numa fase posterior, será criado um Banco de Textos da Nova Dramaturgia Paraibana. Trata-se de um site que abrigará os textos produzidos no laboratório de dramaturgia e artigos e ensaios sobre os processos de criação.
  • LISTA DE SELECIONADOS PARA A OFICINA “DRAMATURGIA E MÚSICA

    Adailson Costa

    Ana Bandeira

    Bertrand Araújo

    Clara Thallia

    Eliza Garcia

    Inácia Rita Maria Larissa Barros de Santana

    Jéssica Mouzinho

    João Paulo Araújo Macêdo

    Marcelo Marques Teixeira

    Raquel Dantas

  • OFICINA “DRAMATURGIA E MÚSICA”

    O  Coletivo  de  Teatro  Alfenim realiza  oficina  sobre  dramaturgia e música  como parte das
    atividades que marcam o processo criativo de seu novo espetáculo O Deus da Fortuna, ganhador do Prêmio de Teatro Myriam Muniz/2010.
    Direcionada a encenadores, atores e músicos interessados em composição para teatro, a oficina acontecerá no período de 13 a 15 de outubro, de quinta a sábado, das 08h às 12h, na Casa de Cultura Cia. da Terra, número 15, praça Antenor Navarro, Varadouro, João Pessoa.
    A seleção dos participantes ocorrerá através do envio de carta de interesse, com breve currículo, até o dia 07/10, para teatroalfenim@gmail.com. O resultado será divulgado por email no dia 10/10.

    Maiores informações: (83) 8892-8099.
    A oficina será ministrada por Martin Eikmeier, compositor e diretor musical da
    Companhia do Latão.
    Oficina: Dramaturgia e Música
    APRESENTAÇÃO: Através de uma investigação dos fenômenos sonoros e musicais como elementos de sintaxe do discurso narrativo, a oficina examina as potencialidades da música em produzir conteúdo, tendo em vista sua natureza abstrata e não semântica.
    1 – EMENTA: Exame das formas dominantes de articulação entre música e cena, especialmente aquelas que partem do melodrama e de suas manifestações no teatro e no cinema, procurando desnaturalizar processos de criação que derivam exclusivamente deste tipo de repertório. Levantamento de alternativas de desnaturalização que busquem sua lógica e inspiração na teoria
    do teatro épico.
    2 – OBJETIVO: Abastecer o aprendiz de ferramentas críticas que permitam uma leitura do texto teatral pressupondo a música e a sonoplastia como um elemento substancial da encenação.
    3 – METODOLOGIA: A Oficina será divida em debates teóricos e trabalhos práticos.
    4 – PÚBLICO ALVO: Encenadores, atores e músicos interessados em composição para teatro.
    5 – NÚMERO DE VAGAS: 20 (vinte)
    6- DURAÇÃO: 12 horas (03 encontros de 04 horas)
    SOBRE O MINISTRANTE: O compositor paulista Martin Eikmeier é doutor em música de cinema pelo departamento de multimeios da Unicamp, diretor musical da Companhia do Latão e professor da SP Escola de Teatro e da Academia Internacional de Cinema.
    Obs.: Os músicos devem levar seu instrumento.
                 
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