SOBRE O ESPETÁCULO “MILAGRE BRASILEIRO” por Renata Escarião


Pude ouvir a respiração ofegante, meio soluçada, da pessoa sentada ao meu lado. Igualmente, senti o fôlego me faltar a cada sucessão de cena. Em alguns momentos uma forte luz amarela se acendeu bem acima da minha cabeça. Eu, platéia, me senti em cena, e senti toda minha aquela agonia.
Senti a falta de ar dos corpos torturados no túmulo, das identidades perdidas em covas clandestinas do submundo de uma pátria.
Senti a dor dos braços rebeldes calados em suas palavras de ordem, dos corações sedentos de esperança afogados no sangue da tirania.
Diante das vozes caladas e olhares petrificados dos atores, só minha respiração ouvi. Sem sair do lugar, caminhei até o palco e passeei entre as falas que suas consciências ainda executavam.
E numa profusão de ponteiros, as camisas vermelhas das minhas histórias se vestiram as cinzas dos idos do passado e me senti cinza também.
E como se chorasse já sem voz para gritar, me perdi entre os olhos das fotografias dos que se foram, perdidos, procurados, desaparecidos.
E toquei os corpos e entrei em todos os lugares desocupados dentro de cada um. Lugares ocupados, procurados.
Confundi-me em suas clandestinidades, autuadas, procuradas.
Me perdi em suas manifestações, prisões.
Dormente, não consegui voltar à platéia, como eles nunca voltaram para seus sonhos. E assim como eles passei a vagar pelas falas, pelas páginas dos livros que ousam registrar a vida que não foi honrada, a vagar pelos gritos abafados, pelas dores dilacerantes e pelo desassossego dos espíritos que clamam por justiça. Que clamam pelo milagre, pelo milagre brasileiro.

14 de março de 2010

Renata Escarião (Jornal Correio da Paraíba)

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