“QUEBRA-QUILOS” por Diógenes Maciel

Quebra- Quilos: quebra metro, quebra tudo ou Eu sei não gritar ou uma experiência de teatro não-dramático

Desde a primeira vez que fui a um dos ensaios abertos da peça Quebra-Quilos, do Coletivo de Teatro Alfenim, em cartaz no casarão da Escola Piollin, em João Pessoa, vieram-me à mente as lições que tomei com a professora Iná Camargo Costa, em seu livro A hora do teatro épico no Brasil (Graal, 1996) no que se refere a esta forma teatral.

Num exame que começaria em 1958, com Eles não usam black-tie, de Gianfrancesco Guarnieri, ainda podemos atestar a força produtiva da dramaturgia em sua viagem rumo ao épico, mesmo que, como diria o crítico Roberto Schwarz, tal forma tenha se tornado uma espécie de artigo de consumo ou grife, em dados momentos. Assim, não é nada curioso que tanto a direção quanto a dramaturgia (mesmo que construída em processo colaborativo com o elenco) sejam assinadas por Márcio Marciano, egresso da Companhia do Latão, de São Paulo, porto seguro do teatro épico-dialético no Brasil, nos últimos dez anos. Daí, talvez, também, as várias estranhezas: aspectos concernentes ao assunto que, pela perspectiva de abordagem, tornam-se, mediante a formalização estética, estranhos aos nossos palcos e, conseqüentemente, a utilização na cena de procedimentos e técnicas que nossos atores não estão, de todo, habituados, revelando, talvez, traços de um momento singular e ainda difícil de ser avaliado de nossa cena teatral, marcada em suas últimas estréias por diálogos de nossos atores com diretores vindos de outras experiências e espaços geográficos que se distanciam das nossas demandas autóctones. Mas isso já seria uma outra reflexão inteira. Todavia, aqui, a questão principal é que o espetáculo resulta em algo que vale (e muito!) a pena ver.

Quebra-Quilos debruça-se sobre a revolta popular que ganhou este nome na província da Parahyba, nos idos de 1874, quando se impôs o sistema importado da França de medidas em quilos, litros e metros para mercadorias comercializáveis. Gota d’água de um contexto em que os impostos, até mesmo pelo chão onde se depositavam mercadorias, ou as regras do alistamento militar colocavam o povo em um beco sem saída, esta revolta tem episódios como a queima de arquivos públicos, a invasão de cadeias e destruição das medidas – o que levará à repressão violenta contra os sediciosos. Quem vai ao teatro esperando ver uma representação realista do conflito não a encontrará. E é aí que mora a questão: a ênfase recai sobre a relação entre as personagens envolvidas diretamente ou que estão à margem do conflito social, mantido à distância até os momentos finais da peça. Focalizamos mãe e filha tangidas pelo medo e pela necessidade; ou então acompanhamos a relação entre o cego e seu guia, com nome de filósofo cínico, todavia um dos personagens mais conscientes em torno do que se desenrola; ou a escrava alforriada que desafia a ordem com toda a desordem-organizada de sua gramática corpórea ainda medida em sistemas antigos; ou, então, experimentamos a perspectiva dos representantes do poder estabelecido, como o oficial aferidor, que é nada além do que mais um dos que apenas executa ordens que lhe são impostas.

O conflito só é referido. Mesmo quando chega ao primeiro plano ainda é na dimensão da narração ou da alegoria, com especial atenção às referências ao universo circense, mediante o distanciamento. Assim, marca-se a contradição entre este assunto e a forma dramática “em crise”. A revolta, ou sua repressão, não cabe na forma dramática tradicional. Irrompem os momentos épico-narrativos, seja nas referências aos episódios em torno dos revoltosos e da repressão a eles testemunhados por diversas personagens, como também o episódio final quando, definitivamente, a revolta (sempre no eixo do épico) atinge as duas personagens que marcam o núcleo dramático central da peça, Joaquina e Floriana, vividas por Zezita Matos e Soia Lira, respectivamente. É mediante certa leitura da relação entre estas atrizes e suas personagens que podemos entender, metonimicamente, não só a peça como este momento da cena paraibana. Se mãe e filha quanto mais fogem da revolta popular mais se aproximam dela, dialeticamente, as atrizes vão se desligando do dramático e se acostando ao épico, o que também se revela nas outras personagens e no trabalho dos outros atores. Em tempo: o elenco equilibra estes nomes de “peso” com outros que não desequilibram a balança, como Daniel Porpino, Roberta Alves, Sebastião Formiga, Daniel Araújo e Verônica de Sousa.

Quebra-Quilos revela, assim, em suas qualidades e em suas ausências, as contradições de nosso momento histórico, tanto no que diz respeito à correlação entre a matéria representada e o nosso cotidiano, como também nas contradições tangentes às forças produtivas em nossos palcos, na corda bamba entre a tradição construída e as novas experiências que surgem. A permanência, ou a síntese dessas questões, só ao tempo caberá a resposta.

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