O COLETIVO ALFENIM E A TEIA DE RELAÇÕES EM QUE ESTAMOS, por Kil Abreu

Segue na íntegra o texto de apresentação do repertório do Coletivo Alfenim, escrito pelo jornalista, crítico e curador do Centro Cultural de São Paulo, Kil Abreu. A montagem gratuita do repertório do grupo marca o início das ações do projeto Figurações Brasileiras, patrocinado pela Petrobras.
O Coletivo Alfenim e a teia de relações em que estamos todos.

O paraibano Coletivo de Teatro Alfenim está entre os grupos brasileiros que têm reinventado a tradição do teatro político na perspectiva de uma abordagem frontal da realidade. A tarefa compra por si uma briga em várias frentes, que têm a ver com os temas eleitos, a perspectiva de pensamento posta e o resultado estético esperado para dar conta dela. A mais visível entre estas frentes é, sem dúvida, a da legitimidade de uma cena social, de face materialista, em uma época de despolitização do fazer artístico.
A segunda, derivada desta, é a afirmação da cena nos campos da vida em coletivo e, portanto, fora dos terrenos em que o político tem sido muitas vezes negociado nas temporadas recentes, qual seja: pelo seu avesso, na chave de micro-políticas, como as de gênero, raça, sexualidade etc. Uma terceira frente é a da fatura estética propriamente dita, em que o grupo segue experimentando e descobrindo as relações possíveis entre assunto e forma, tomando como paradigma certos instrumentos inspirados na tradição do teatro crítico, mas repostos segundo a necessidade de um contexto histórico específico, o nosso mesmo, atual.
Quanto a esta atualidade o que de imediato é mais perceptível na criação do Alfenim até aqui é o gosto por buscá-la não através da tematização direta das questões do dia; mas, por via indireta, olhando para trás, para o passado histórico, recuperado como candeeiro a tentar iluminar a noite confusa dos tempos que correm. Junto a este artifício irmanam-se outros dois dispositivos importantes: o fragmento e a memória, recorrentes em todos os espetáculos e que por assim dizer constituem a um só tempo os instrumentos de trabalho e a ossatura com que as narrativas são levantadas, na sua dupla função de visitar o que foi para olhar com maior repertório o que está sendo. É um teatro, então, que ao representar uma revolta popular ocorrida no século XIX ou a ditadura militar brasileira não tem nenhum interesse na História como registro, como acontecimento, mas, dialeticamente, como puro movimento.
O princípio do político no Alfenim não está, pois, refém dos seus temas, tomados em si, mas na própria engrenagem que faz mover este jogo com a História: o trabalho de interpretação do real intui no plano simbólico das formas o trabalho de modificação do real, visto não como o resultado natural do processo, mas como o seu estágio possível, atual, modificável.
Nesta perspectiva, O Deus da fortuna (2S011) e Quebra-quilos (2008) sem dúvida fazem diálogo efetivo no estudo sobre como as formas que o Capital toma no decorrer do tempo interferem não só nas relações de poder entre classes como também nos sistemas de valores. O primeiro conta sobre duas mulheres em tudo pacíficas, migrantes no próprio território – a Paraíba da segunda metade do séc. XIX – indo ao encontro dos indícios da Revolta popular contra o enquadramento feito pelo Estado nos padrões de medidas do comércio na época. O fundo é o confronto entre o homem comum e as dobras, agora renovadas, do sistema econômico. O segundo é a parábola em que um proprietário de terra da China imperial vê, através de uma divindade inventada, o futuro possível dos seus negócios. E este surge, paradoxalmente, como um espetáculo hiperbólico, mas imaterial (o capital especulativo). São montagens que, por contraste, nos mostram a mediação, através do trabalho ou na deliberada ausência dele, da fugidia “natureza” das relações de poder, sob o signo de determinações que parecem exteriores ao sujeito, mas que – nos indicam as encenações – são circunstanciais, não naturais.
Assim como em Quebra-Quilos a violência do Estado volta à pauta em Milagre Brasileiro (2010). A tarefa do grupo é inquirir a ditadura militar a partir de uma difícil proposição formal: a de personificar o desaparecido político. Antígona e Nelson Rodrigues são referências tomadas para o confronto entre Estado e sujeito, em um espetáculo no qual grita o contraste entre a versão autoritária, mas funcional do capital (o crescimento econômico) e novamente as consequências no plano da vida comum, em que a função se ampara no aniquilamento da diferença, no assassinato oficial.
Histórias de sem réis (2010) é narrativa aberta a partir dos relatos de frequentadores do Ponto de cem réis, no Centro de João Pessoa. Tomando como pressuposto uma forma cênica em processo, o grupo recolhe histórias de frequentadores do local, negociadas a R$5,00. Tem como um dos eixos uma greve recente de policiais paraibanos, e como ponto de chegada o tema brechtiano das relações entre caráter e contingência, moral e necessidade, iluminado através de perguntas sobre o estado atual de precarização do trabalho e sobre o espaço público como berço da sociabilidade.
Aparentemente obra de exceção, o solo Brevidades (2013) tem foco mais específico: o mal de Alzheimer, na história auto-narrada de uma atriz que já não sabe se está em um teatro ou no hospital. Mesmo aqui, entretanto, por força do tema aqueles artifícios, memória e fragmento, são retomados, agora no ambiente auto-reflexivo da vida íntima. E de novo nos chamam para o encontro entre passado e invenção. Entre o lapso – subjetivo, histórico – e a necessidade de reconstituição crítica das narrativas.
Tomando de frente uma época confusa, mas com fé na razão, é assim que o Coletivo Alfenim vem organizando o seu projeto artístico. Uma procura estética cuja base necessária é o experimento. São soluções que revisitam intencionadamente os gêneros – do dramático inerente à vida ao alegórico que serve para enxergá-la em contornos mais nítidos. Da parábola cômica e histórica de raiz brechtiana à narrativa íntima, que enxerga de volta o sujeito no seu enlaçamento com a sociedade.
É referência que se empresta neste momento à cena brasileira a partir de uma realidade local, mas com coordenada de pensamento muito ambiciosa, que projeta aqueles dramas singulares na teia de relações a que estão atados. Qual seja, a teia da convivência em que, aqui ou ali, estamos todos atados.
Kil Abreu.

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