“NO SONO FINDAM-SE AS DORES DO CORAÇÃO” OU SOBRE BREVIDADES: NOTAS, por Romero Venâncio

Texto escrito pelo professor Romero Venâncio sobre o monólogo Brevidades:

“NO SONO FINDAM-SE AS DORES DO CORAÇÃO” OU SOBRE BREVIDADES: NOTAS

“Pois o importante, para o autor que rememora, não é o que ele viveu, mas o tecido de sua rememoração, o trabalho de Penélope da reminiscência” (Walter Benjamin)

Nunca uma frase veio tão em boa hora para definir o mais recente trabalho do Coletivo Alfenim da Paraíba. Falamos aqui da peça/monólogo “Brevidades” (2013) que tem como centro a história de uma atriz impossibilitada de exercer seu oficio por ser acometida do “mal de Alzheimer”. Só no tema já teríamos um desafio hercúleo para uma boa atriz. A velhice perde cada vez mais espaço no teatro, cinema ou televisão ou quando aparece é na forma pitoresca ou tola, próprio da maioria desses meios de comunicação atual. O trabalho de Márcio Marciano vai bem longe do modelo televisivo hegemônico e nos coloca de cara no impacto que representa esta doença que macula a memória de maneira irreversível e convoca-nos a pensar como é possível isto no teatro, arte da memória, por natureza. Mas muito do trabalho de direção deve a marcante atuação da atriz Zezita Matos. Atriz conhecida por filmes fortes na dramaturgia cinematográfica brasileira. Dirigida por Cláudio Assis ou Karin Ainouz, diretores dos mais importantes no cinema atual, Zezita desembarca do palco de “mala e cuia” e nos brinda com momentos de densidade cênica como poucos.
A peça não se resume “apenas’ a nos mostrar o cotidiano de atriz que vem perdendo paulatinamente a memória por conta da doença. Aqui já teríamos grande coisa. Vai além. Nos coloca diante da realidade da atriz e da nossa realidade no sentido afirmado pelo filósofo Walter Benjamin ao se referir à obra de Proust, dentro do que chamou de “o tecido da rememoração”. A peça tem essas marcas formais, faz entrar nesse tecido da rememoração em progresso de sofrimento, mas que não perde um certo humor (em alguns momentos temos que rir mesmo no trágico de uma vida) e na maioria das vezes, pensamos, refletimos e sem perder de vista os rompantes da atriz nela mesma, porque ela nos convoca e não nos deixa parar. A forma de “Brevidades’ é nos fazer estar bem perto, literalmente e imaginariamente. A atriz nos puxa para perto, nos invade de surpresa e nos faz sentir aquilo como teatro que transborda para a vida.
Como bem afirmou o escritor Astier Basílio em seu artigo sobre a peça: “A atriz, em vários momentos, convoca, convida, provoca, dialoga cara a cara com a plateia, como um veterano clown que vai triangulando com sua audiência”. Perfeita observação do escritor paraibano. Vemos/sentimos isto e nos sufocamos às vezes, rimos outras vezes e nos incomodamos na maioria delas… Para ficarmos apenas na “desorientada subjetividade” da atriz convalescente, o Coletivo Alfenim nos faz ver um Brecht onde menos imaginamos, ou ainda Benjamin: “O palco ainda ocupa na sala uma posição elevada, mas não é mais uma elevação a partir de profundidades insondáveis: ele transformou-se em tribuna. Temos que ajustar-nos a essa tribuna”. Significa que muitos dos problemas sociais e políticos do mundo concreto vêm ao palco na sua forma dramatúrgica e nos faz pensar dentro dos momentos de “estranhamentos” que passamos e dos conflitos evocados quase todo o tempo, desde o impacto inicial onde a atriz nos agride ou tenta ao perguntar de chofre o que fazemos ali…
Os preconceitos da atriz ou do meio dela, as injustiças que cometeu, os erros mitigados e a crueldade do esquecimento de quem vivia para lembrar, nos faz não sair do mundo para ver uma peça, mas nos coloca cada vez mais dentro e saímos do teatro com as coisas da “tribuna” queimando em nosso cérebro. Mas a atriz nos consola: “No sono findam-se as dores do coração”… Mas só no sono que como diz o titulo da peça, é breve (salvo quando dormimos para sempre na morte, destino do todos e todas) e voltamos à lida cotidiana e nossos afazeres. “Brevidades” do Coletivo Alfenim mais uma vez honra um “teatro épico” feito no Nordeste brasileiro e nos coloca alinhados aos ponteiros do mundo. Os problemas do teatro não se reduzem ao teatro, mas estão no mundo ou como diz o filósofo cronista Paulinho da Viola: “As coisas estão no mundo, só que eu preciso aprender”.

Romero Venâncio é professor na Universidade Federal de Sergipe. Atua, principalmente, nos seguintes temas: Filosofia Contemporânea, Estética, Teoria da Religião e Teoria Política Latino Americana.

Deixe uma resposta

Responda para enviar * Time limit is exhausted. Please reload the CAPTCHA.

                 
%d blogueiros gostam disto: