NA LAPADA DA VIDA, NASCEMOS ALFENINS por Márcio Marciano

O Alfenim está nascendo da labuta de trabalhadores artistas empenhados na fatura e no debate de um Teatro que se processa como forma estética interessada em se inscrever no âmbito da ação política, porque não existe arte que não seja política. Teatro do prazer que vem da crítica, da invenção formal exigida pelos novos assuntos, da dialética entre o ontem e o agora, o amanhã e a tradição.
Nosso primeiro espetáculo, Quebra-Quilos, reflete o compromisso de extrair beleza da matéria crua produzida pelo desmando patrimonialista, secular, vil, que tem marcado a sociabilidade brasileira e nordestina. Beleza extraída da matéria múltipla, ao mesmo tempo grandiosa e amesquinhada, que compõe o perfil bifronte de uma gente que só se reconhece na desidentidade. Por isso, beleza substantiva, beleza do entendimento das causas, do comprometimento em face da apatia, em face da bulimia pelas formas falseadas, beleza em face das capitulações mascaradas da pós-modernidade.
Aos desencantados, desavisamos: nossa arma é artesania material e simbólica, funda de trapo e pedregulho, contra gigantes de um olho só. Somos Alfenins: quanto mais dura a rapadura, mais firme e delicada a consistência, mais complexa a doçura.
 
     Nossa escolha é pelo aprendizado cotidiano da autonomia, por isso nos reconhecemos no trabalho desalienante da razão crítica, na apropriação coletiva dos modos de produção de uma cena identificada com a exigente fruição estética que só pode vir da produção coletiva de sentidos comuns, ainda que contraditórios, inconclusivos e, por isso mesmo, plurais.
Antes mesmo de nascer, o Teatro Alfenim já participava dos encontros da Lapada em gestação. Artistas com propósitos semelhantes, cientes de que o movimento vem da margem. O teatro no qual acreditamos se concebe colaborativo, atuante, voltado para a realidade social do lugar onde está inserido, e não descuida da complexa tessitura de contradições que é a sociedade brasileira. Não poderia estar alheio à Lapada, um movimento de coletivos teatrais dispostos ao intercâmbio contínuo de suas práticas estéticas e procedimentos de luta. O Alfenim quer aprender com a experiência desses coletivos de curta ou longa jornada, sem exceção, ativos nos combates por políticas públicas urgentes que permitam aos artistas exercer o pleno direito de sua cidadania enquanto produtores do patrimônio imaterial que faz de nós o que somos: brasileiros.
Portanto, é preciso, antes de mais nada, nos entendermos como grupo, para além de uma retórica declaração de intenções. É na lapada cotidiana da vida que iremos nos constituir e compreender como coletivo aberto ao debate e à reflexão da problemática brasileira, sem nunca perder de vista que nosso compromisso é estético. É da invenção das novas formas que surgirá a apropriação crítica dos novos conteúdos.
A todos lapadianos e àqueles que se solidarizam com a mesma busca não nos esqueçamos da insígnia popular: “a rapadura é doce, mas não é mole”.
 
*Márcio Marciano é dramaturgo e diretor, idealizador do Coletivo de Teatro Alfenim

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