MILAGRE BRASILEIRO

 
Milagre Brasileiro é uCARTAZ por Shikom espetáculo experimental que tem como tema os anos de chumbo da Ditadura Militar, período marcado pela Tortura e pela euforia do crescimento econômico. Seu foco é o “desaparecido político”, personagem que assombra o trágico dia-a-dia dos familiares e amigos que ainda hoje perseveram para obter das autoridades uma resposta satisfatória sobre seu paradeiro. Situação que de resto assombra a consciência nacional.
 
 
Personagem emblemática por sua condição extrema, o “desaparecido político” não pode ser incluído na estatística macabra dos mortos em combate, tampouco na lista não menos macabra das vítimas que sobreviveram à barbárie praticada nos porões do Regime Militar.
 
Essa estranha condição de “existência imaterial”, do sujeito que é subtraído da História, se reflete na dramaturgia do espetáculo. Embora já sejam abundantes os estudos e relatos sobre as ações da Ditadura, chama atenção o fato de que o Estado Brasileiro se empenha até hoje em acobertar os crimes praticados pelas Forças Armadas em nome de uma suposta “Segurança Nacional”.
 
Em vista dessa aviltante e deliberada supressão da narrativa histórica por parte do Estado Brasileiro, o espetáculo opta por abrir mão da “fábula” que conduziria o espectador em meio aos acontecimentos daquele período. Essa escolha conceitual decorre da necessidade de tratar o assunto sem esquematismos ou juízos morais sobre de que lado estaria a Verdade, uma vez que esta é sempre múltipla e contraditória.
 
A escolha implica ainda um desafio aos atores na medida em que lhes é solicitado emprestar seu corpo expressivo a uma virtualidade, o “desaparecido político” que somente pode se constituir em personagem como ausência.
 
Diante da aparente impossibilidade de narrar fatos escabrosos da recente História do país, Milagre Brasileiro pede auxílio à tradição teatral do Ocidente. Convoca “Antígone”, a heroína trágica que confronta a razão do Estado e desobedece às leis para realizar o funeral de seu irmão morto em duelo fratricida. E também se inspira no “teatro desagradável” de Nelson Rodrigues. Da fricção desses materiais incongruentes surge a forma do espetáculo.
 
O Coletivo de Teatro Alfenim dedica seu Milagre Brasileiro a todos os brasileiros que perderam suas vidas na luta pelo fim da Ditadura no Brasil.

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