INSCRIÇÕES ABERTAS PARA OFICINA “EXERCÍCIOS PARA UMA CENA DIALÉTICA”

Coletivo de Teatro Alfenim realiza oficina gratuita
“Exercícios para uma cena dialética”
 
O Coletivo de Teatro Alfenim realiza oficina sobre o processo criativo do grupo como parte das atividades que marcam o início dos estudos de pesquisa de seu novo espetáculo O Deus da Fortuna, ganhador do Prêmio de Teatro Myriam Muniz/2010.
Direcionada a profissionais e estudantes de teatro, a oficina acontecerá nos dias 04 a 08 de julho, de segunda à sexta, das 08h às 12h, na Casa Amarela, sede provisória do grupo, na Rua Maria Cavalcante Gomes, 50 – Bairro João Agripino.
A seleção dos participantes ocorrerá através do envio de carta de interesse, com breve currículo, até o dia 27/06, para teatroalfenim@gmail.com. O resultado será divulgado por email no dia 01/07.
A oficina visa selecionar estagiários interessados em acompanhar o processo de criação do novo espetáculo.
 
 
EXERCÍCIOS PARA UMA CENA DIALÉTICA
Coletivo de Teatro Alfenim
 
APRESENTAÇÃO: Através de exercícios de improvisação com base em cenas modelares da obra de Shakespeare, Brecht e Heiner Müller, a oficina introduz os fundamentos do método dialético para o desenvolvimento de uma prática dramatúrgica do ator em cena, pautada pelo princípio da contradição.
 
1 – EMENTA: Delineamento das leis da dialética a partir do exame de sua aplicação em cenas da dramaturgia épica. Estudo da contradição como propulsora da ação cênica. Conceitos básicos.
A
2 – OBJETIVOS: Introduzir as noções de base para a criação de uma cena dialética. Correlacionar estas noções aos procedimentos narrativos e ao conceito de “dramaturgia do ator”. Aprofundar discussões em torno das concepções clássicas de personagem e ação.
 
3 – CONTEÚDO PROGRAMÁTICO:
• Fundamentos do Método Dialético.
• Conceito de “ação transversa”: dialética entre “ação interna” e “ação física”.
• Relação entre personagem e ator-narrador.
• Dramaturgia da ação e dramaturgia da narração.
 
4 – METODOLOGIA: Exercícios de improvisação a partir de cenas-modelo; workshops individuais e coletivos; aplicação dos fundamentos do método dialético na elaboração de cenas.
 
5 – PÚBLICO ALVO: Atores, diretores, dramaturgos e estudantes de teatro.
 
6 – NÚMERO DE VAGAS: Máximo de 10 (dez).
 
7 – DURAÇÃO: 20 Horas (05 encontros de 04 horas).
 
O DEUS DA FORTUNA
 
 
A pesquisa do Coletivo de Teatro Alfenim tem se pautado pela criação de uma dramaturgia própria orientada para a problematização de temas da sociabilidade brasileira, com vista a um projeto mais amplo de formação de plateias na Paraíba. Os espetáculos Quebra-Quilos, Milagre Brasileiro e o experimento em progresso Histórias de Sem Réis tratam de momentos emblemáticos de nossa história, respectivamente, da revolta popular ocorrida no sertão paraibano, dos “anos de chumbo” da Ditadura Militar e do processo de desmanche do espaço público reduzido a área de confronto dos interesses privados.
Levando em conta essa experiência e sentindo a necessidade de ampliar cada vez mais seu alcance de interlocução com a sociedade, o Coletivo de Teatro Alfenim objetiva com a montagem de O Deus da Fortuna um evento cênico de maior abrangência, sem que se percam de vista os temas brasileiros. Assim, almeja criar uma comédia popular de comunicação direta sem prejuízo de sua complexidade formal.
A escolha do assunto resulta da percepção de que a sociedade contemporânea, em face do pragmatismo da revolução tecnológica, vem ensaiando alternativas para sua natural busca por transcendência fora do âmbito das grandes religiões. Proliferam seitas, igrejas e comunidades religiosas que se apresentam como panaceias espirituais de efeito imediato, capazes de oferecer a seus fiéis a garantia de sucesso num mundo cada vez mais competitivo. As grandes religiões, por sua vez, tentam adaptar-se às exigências impostas pela lógica do mercado, chegando ao limite de “esquecer” seus dogmas ou de reformular suas liturgias para não perderem seus adeptos.
Essa aparente contradição entre a imediaticidade da realização de todo desejo de consumo, falsamente criada pela publicidade por um lado, e a necessidade de transcendência por outro, surge como o pretexto mobilizador da dramaturgia de O Deus da Fortuna.
 
 
Nosso objetivo é discutir através da comédia os efeitos dessa legítima busca por transcendência num mundo marcado pela lógica da mercadoria, onde até os supostos milagres de homens santos tornam-se objeto de transações comerciais, e a negação veemente do apego material converte-se em dinheiro. Num mundo em que a autêntica ânsia por experiências transcendentes redunda em performances de autopromoção publicitária. O grupo visa também investigar criticamente as novas formas de dominação ideológica praticadas em nome da “religião”, assim como seu papel no complexo mecanismo de amortecimento das tensões sociais provocadas pela concentração da renda e pelo alijamento de grande parcela da sociedade brasileira no processo de distribuição da riqueza do país.
Naturalmente estas questões só poderão ser potencializadas em sua dimensão crítica pela forma complexa de sua expressão cênica. Nesse sentido, o grupo prevê o estudo do gênero cômico em suas diversas modalidades, de modo a possibilitar a escrita de uma dramaturgia em que prevaleça o ponto de vista popular, sem prejuízo da complexidade estética com que serão tratadas as questões discutidas na peça. De tal maneira que o risco de uma apropriação indébita das formas populares fique afastado pelo esforço permanente de dialetização das cenas. Nesta nova empreitada, o Coletivo de Teatro Alfenim visa levar adiante uma pesquisa que potencialize o rebaixamento cômico como meio privilegiado de reflexão.
Num terreno em que prepondera a autossugestão complacente e a constante entrega da consciência aos cuidados de um “líder espiritual”, uma vez que a matéria da peça são as formas de adesão voluntária aos ritos alternativos que propõem uma espécie de “pragmatismo transcendental” com vista ao sucesso no âmbito profissional e afetivo, o distanciamento através do riso nos parece indispensável para que a gravidade do tema seja posta em primeiro plano. Entretanto, a montagem de O Deus da Fortuna não objetiva a promoção do riso fácil que nasce do reconhecimento que provém da ridicularização de “tipos” crédulos e carentes de transcendência. Visa, ao contrário, possibilitar por meio de situações patéticas e grotescas a reflexão sobre a “indústria” da religião e suas promessas de socorro espiritual, assim como seu comprometimento com a lógica da espetacularização religiosa enquanto instrumento legitimador da ação do Capital.

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