FIGURAÇÕES BRASILEIRAS

Formação, pesquisa e repertório do Coletivo Alfenim

Com patrocínio da Petrobras, o Coletivo de Teatro Alfenim inicia em agosto de 2013, na Fundação Casa de Cultura Companhia da Terra, em João Pessoa, a primeira etapa de Figurações Brasileiras, com temporada gratuita de seus quatro primeiros espetáculos: Brevidades, O Deus da Fortuna, Milagre Brasileiro e Quebra-Quilos.

Figurações BrasileirasO título que dá nome ao projeto, Figurações Brasileiras, refere-se à tentativa de análise e caracterização dos processos históricos que determinam as contradições da sociabilidade brasileira. Compreende uma visão retrospectiva do trabalho do
Coletivo desde sua origem, e a perspectiva de continuidade da pesquisa em dramaturgia e encenação.

Através da figuração dos agentes que compõem o complexo painel de nossa sociedade em formação, flagrados em atos que revelam sua condição de classe em permanente antagonismo, os espetáculos do Coletivo, vistos agora em repertório, procuram abordar períodos marcantes da História do Brasil, de forma a refletir sobre o processo tortuoso e sempre falhado de formação do sujeito brasileiro.

O desejo do Coletivo de colocar em perspectiva o trabalho de seus primeiros seis anos de existência (2007 a 2013), através de uma Mostra com quatro espetáculos, nasce da exigência metodológica de reavaliar sua experiência pregressa, de forma a melhor se equipar para o enfrentamento das futuras demandas no âmbito da criação de uma nova dramaturgia.

Nessa perspectiva, o Coletivo opta por apresentar ao público de João Pessoa sua trajetória em chave invertida, partindo do mais recente espetáculo, Brevidades, de 2013, para seguir em retrospectiva até seu espetáculo de estreia, Quebra-Quilos, de 2008, passando por O Deus da Fortuna, de 2011 e Milagre Brasileiro, de 2010.

Para aqueles que acompanham o Coletivo desde sua origem com Quebra-Quilos, o repertório constitui-se como uma possibilidade de revisão crítica de nossas proposições estéticas e políticas, além de representar uma oportunidade de
rememoração de uma experiência tão fugidia como a que o Teatro proporciona.

Para os novos espectadores, que não tiveram a oportunidade de acompanhar os trabalhos mais antigos do Coletivo, Figurações Brasileiras se apresenta como um convite ao conhecimento e ao debate de nossas ideias e modos de composição
artística.

Vistos em sequência, os espetáculos Brevidades, O Deus da Fortuna, Milagre Brasileiro e Quebra-Quilos, descortinam um complexo sistema de dominação de classe, marcado pela prepotência de uma elite econômica que impõe sua visão universalista de mundo por meio do apagamento dos antagonismos, seja através da eliminação sumária e violenta de seus opositores, seja pelas mais abjetas formas de cooptação ideológica ou aliciamento afetivo.

Apesar das evidentes diferenças formais que os espetáculos apresentam entre si, o observador atento poderá identificar o mesmo procedimento dialético na composição e desenvolvimento das narrativas, assim como, o mesmo posicionamento crítico em face dos desmandos da elite brasileira, ao mesmo tempo soberba e autoritária em suas relações de classe e subalterna às injunções econômicas e políticas internacionais.

O espectador poderá ver também como certas artimanhas de sobrevivência irmanam personagens do passado e do presente, em suas estratégias de confronto com o inimigo de classe, revelando uma atitude popular de franca insubmissão que
nos convida a imaginar, sem temor de sermos excessivamente utópicos, a possibilidade de construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

O repertório abre com a estreia de Brevidades, um exercício de metalinguagem que utiliza o Mal de Alzheimer como metáfora de um Teatro em decadência, porta-voz de valores esclerosados, identificados a uma classe também decadente. Não
deixa, entretanto, de refletir sobre o efeito devastador que a doença provoca tanto em seu portador quanto nas pessoas de seu convívio.

O Deus da Fortuna, segundo espetáculo da mostra, reflete em viés cômico o processo de volatilização da economia na periferia do Sistema. É uma parábola de coloração chinesa que narra a história de um proprietário à moda antiga afundado
em dívidas. Obrigado a comerciar a própria filha, ele recebe a visita do Deus da Fortuna, divindade da sorte, muito popular na China. Através dos ensinamentos desse deus, o proprietário encontrará meios de incorporar-se aos modos da circulação do capitalismo financeirizado.

O terceiro espetáculo do repertório, Milagre Brasileiro, é um experimento cênico que tem como foco o “desaparecido político”. Utilizando o mito de Antígona e referências ao Álbum de Família, de Nelson Rodrigues, o espetáculo aborda os “anos de chumbo” da Ditadura Militar e reflete sobre a adesão da classe média ao golpe.

Fechando o repertório, o Alfenim reencena Quebra-Quilos, espetáculo de estreia do Coletivo, em 2007. A peça trata das revoltas populares que sacudiram o sertão da Paraíba em fins do século XIX. Os revoltosos se insurgiam de modo desordenado e espontâneo contra o aumento de impostos, o regime escravocrata e os desmandos da classe dirigente. O pretexto era a introdução obrigatória no país do Sistema Métrico Decimal. As manifestações ocorridas recentemente em todo o Brasil dão a dimensão de atualidade do tema.

Após esta jornada retrospectiva, o Coletivo Alfenim passa a dedicar-se, em 2014, aos estudos da obra de Machado de Assis, com vista à criação de um novo espetáculo, cujo nome provisório é Memórias de Um Cão. O Coletivo objetiva
sintetizar neste novo trabalho a experiência obtida na criação de seu repertório, e apontar para novas inquietações e questionamentos acerca do sujeito brasileiro.

ESPETÁCULOS:

Brevidades

Brevidades (2013) narra a história de uma atriz impossibilitada de exercer seu ofício devido ao Mal de Alzheimer. O monólogo é um exercício de metalinguagem que recorre à experiência de cena de uma atriz para representar o papel de outra atriz, Eleusa, que desaprende o ato de representar.

Na zona obscura em que se amalgamam os dados da atualidade e os resquícios do mais longínquo passado, a personagem faz diluir com suas ações incongruentes os limites entre o vivido e o representado.

O espetáculo explora os sintomas da doença de modo a refletir poeticamente sobre a maneira como esse mal afeta a subjetividade tanto de seu portador quanto das pessoas de seu convívio.

Proporciona ao público um espaço íntimo de questionamento sobre as novas formas de sociabilidade impostas pela doença, marcadas pela necessidade de uma reassimilação solidária de nossos entes próximos, tornados outro sob o efeito
deletério deste mal que ainda não compreendemos.

FICHA TÉCNICA:

Texto e direção: Márcio Marciano
Atuação: Zezita Matos
Pesquisa: Verônica Sousa e Zezita Matos
Direção de arte e figurinos: Vilmara Georgina
Cenário e iluminação: Márcio Marciano
Programação visual: Marcello Tostes (Côco)
Produção executiva: Gabriela Arruda
Realização: Coletivo Alfenim

O Deus da Fortuna

O Deus da Fortuna (2011) é uma parábola em chave cômica que utiliza como
ponto de partida um argumento de Bertolt Brecht, retirado de seus diários de
trabalho. O dramaturgo alemão relata sua intenção de escrever uma peça inspirada
na imagem desse deus, muito popular na China.

Com base nessa alegoria, o Coletivo Alfenim cria o seu próprio Deus da Fortuna,
totalmente identificado ao capital especulativo, e o faz surgir na propriedade de
um capitalista à moda antiga, o Senhor Wang, para lhe revelar a “metafísica” do
capitalismo financeirizado dos dias atuais.

Sintonizado com as novas formas imateriais de acumulação do capital esse
acumulador primitivo irá saldar suas dívidas e erguer um novo templo ao Deus da
Fortuna, o templo da especulação financeira.

Em tempos de crise sistemática do capitalismo, cuja lógica é a de se alimentar de
trabalho não pago e da promessa fictícia de que o capital especulativo promoverá a
felicidade futura, comprometendo não apenas as gerações de hoje como também
as gerações vindouras, o Coletivo Alfenim experimenta a comédia com o
propósito de desmascarar a maquinaria ideológica que escamoteia a ação deletéria
do capital especulativo, com suas artimanhas metafísicas.

FICHA TÉCNICA:

Texto e direção: Márcio Marciano
Atuação: Adriano Cabral, Lara Torrezan, Mayra Ferreira, Nuriey Castro, Paula
Coelho, Ricardo Canella e Vítor Blam
Pesquisa: Coletivo Alfenim
Direção de arte e figurinos: Vilmara Georgina
Direção musical: Mayra Ferreira e Nuriey Castro
Composições musicais: Wilame A.C. e Coletivo Alfenim
Cenário e iluminação: Márcio Marciano
Programação visual: Marcello Tostes (Côco)
Produção executiva: Gabriela Arruda
Realização: Coletivo Alfenim

Milagre Brasileiro

Milagre Brasileiro (2010) tem como tema os “anos de chumbo” da Ditadura
Militar, período marcado pela tortura e pela euforia do crescimento econômico.
Seu foco é o “desaparecido político”, personagem que assombra o trágico dia-a-dia
daqueles, familiares e amigos, que ainda hoje perseveram para obter do Estado
Brasileiro uma resposta satisfatória sobre seu paradeiro. Situação que de resto
assombra a consciência nacional.

Personagem emblemática por sua condição extrema, o “desaparecido político” não
pode ser incluído na estatística macabra dos mortos em combate, tampouco na
lista não menos macabra das vítimas que sobreviveram à barbárie praticada nos
porões do regime militar.

A estranha condição de “existência imaterial”, do sujeito que é subtraído da
História, se reflete na dramaturgia do espetáculo, que opta por abrir mão da fábula
e de sua tradicional função de conduzir o espectador em meio aos acontecimentos
daquele período.

Dessa forma, o espetáculo põe em cena a figura mítica de Antígona para dialogar
com nossos mortos. Sua referência é o “teatro desagradável”, de Nelson Rodrigues,
em seu Álbum de Família.

FICHA TÉCNICA

Texto e direção: Márcio Marciano
Atuação: Adriano Cabral, Lara Torrezan, Mayra Ferreira, Nuriey Castro, Paula
Coelho, Ricardo Canella, Suellen Brito, Vítor Blam e Zezita Matos
Pesquisa: Coletivo Alfenim
Direção de arte e figurinos: Vilmara Georgina
Direção musical: Mayra Ferreira e Nuriey Castro
Composições musicais: Wilame A.C. e Coletivo Alfenim
Cenário e iluminação: Márcio Marciano
Programação visual: Marcello Tostes (Côco)
Produção executiva: Gabriela Arruda
Realização: Coletivo Alfenim

Quebra-Quilos

Quebra-Quilos (2008) narra a história de duas mulheres que, em 1874, são
expulsas do campo e procuram abrigo numa vila do sertão paraibano, em meio a
rumores de que os quebra-quilos, sediciosos que lutam contra a implantação do
sistema métrico decimal preparam-se para invadir a feira da localidade e
promover a revolta. Mãe e filha tornam-se testemunhas e vítimas da violência das
autoridades locais contra os matutos revoltosos.

O alto teor de sugestão simbólica dos quebra-quilos põe a narrativa desses fatos
ocorridos em fins do século XIX na ordem do dia. São inúmeros os pontos de
contato com a atualidade como a insatisfação devida ao aumento excessivo e
irrealista dos impostos, a manipulação da boa-fé do cidadão, tanto por parte das
autoridades do governo imperial como por parte das autoridades religiosas locais
e dos grandes proprietários e, principalmente, a potencial violência que
transforma os alijados do mundo produtivo em criminosos sociais.

Basta abrir os jornais ou conectar-se às redes sociais para perceber que as
matrizes da revolta popular que acendeu o sertão da Paraíba podem ter mudado
de aspecto, mas não se alteraram em sua essência. Quem são os novos agitadores
sociais, deliberadamente transformados pela mídia burguesa em criminosos
comuns, e que aterrorizaram o cidadão de classe média e as autoridades de plantão
nas recentes manifestações de rua ocorridas em todo país?

FICHA TÉCNICA

Texto e direção: Márcio Marciano
Atuação: Adriano Cabral, Lara Torrezan, Paula Coelho, Ricardo Canella, Soia Lira,
Suellen Brito,Vítor Blam e Zezita Matos
Pesquisa: Coletivo Alfenim
Direção de arte e figurinos: Vilmara Georgina
Direção musical: Mayra Ferreira e Nuriey Castro
Composições musicais: Marc França e Coletivo Alfenim
Cenário e iluminação: Márcio Marciano
Programação visual: Marcello Tostes (Côco)
Produção executiva: Gabriela Arruda
Realização: Coletivo Alfenim

SERVIÇO

Brevidades: agosto/setembro de 2013.
O Deus da Fortuna: outubro/novembro de 2013.
Milagre Brasileiro: novembro/dezembro de 2013.
Quebra-Quilos: janeiro/fevereiro de 2014.
Local: Fundação Casa de Cultura Companhia da Terra (centro histórico)
Horário: Sextas e sábados às 20:00
Classificação: Não recomendado para menores de 14 anos
Entrada Gratuita (retirar ingressos com meia hora de antecedência).
Contato produção: (83) 9657-0277
Patrocínio: PETROBRAS

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