FIGURAÇÕES DO FETICHISMO

Conversa com Iná Camargo Costa sobre O DEUS DA FORTUNA, do Coletivo de Teatro Alfenim (Teatro de Arena Eugênio Kusnet, São Paulo, julho de 2012)* 

 
 Iná Camargo – A conversa deve ser rápida. O assunto é O Deus da Fortuna. Como vocês viram, eu adorei. Assisti duas vezes. Da primeira, reclamei porque a cena dos bonecos é uma coisa tão maravilhosa que nem prestei atenção no texto, só na segunda vez consegui . Reclamei também da cena final que sobrepõe o coro ao texto. Também na segunda vez não deu pra ouvir direito . Não sei se avisaram a vocês, mas não conseguimos ouvir vários sons ao mesmo tempo, quando se trata de sons articulados em palavras. Você não consegue decifrar palavras diferentes ditas ao mesmo tempo. Leia lá, Mário de Andrade – A escrava que não é Isaura – ele explica isso didaticamente, porque a palavra articulada precisa ser ordenada, combinada de modo que se possa ouvir uma de cada vez. Então, dois discursos ao mesmo tempo fica impossível. E no caso ali não eram nem dois porque tinha também o discurso visual do 11 de Setembro e companhia.
 Paula Coelho – Como a música aparece em outro momento da peça, julgamos que, nessa altura, o público prestaria mais atenção à fala da personagem. É uma tentativa de ressaltar o discurso reacionário da canção e enfatizar a ironia da cena.
 Iná Camargo – Tem que combinar com o discurso do Wang. Tecnicamente, há várias alternativas. Com a música cantada, não adianta. É a natureza humana – você quer entender todas as palavras tanto as da música quanto o que a personagem está dizendo. É preciso alternar, combinar. É isso o que Mário de Andrade chama de “Harmonia na Poesia”. Muito bem, feita a reclamação… Porque é uma questão técnica. Fiquei no prejuízo, continuo não sabendo o que tanto ele falou naquele final.
 Daniel Araújo, ator que representa a personagem Wang, diz o texto em questão, reproduzido a seguir: WANG – Já posso ver o novo templo, que não será único. Outros serão erguidos por todo o continente. Nele os verdadeiros valores da civilização circularão desimpedidos da matéria. Já posso ouvir o rumor dos cânticos. O espetáculo dos agentes transtornados pela fé na Fortuna. Bocas em espasmos, olhos esbugalhados, mãos trêmulas em gestos convulsivos. Espanto! Desespero! De repente, puro entusiasmo! Ombro a ombro, como uma onda humana, frenéticos e aloprados, como num ritual primitivo cultuando o Deus da Fortuna!
 Iná Camargo – Muito bom. É uma ode ao capital financeiro! Penso que em teatro desse tipo ou você acerta ou erra tudo e o grande acerto foi a proposta. Uma maneira de explicar o que é a peça de forma resumida: Figurações do Fetichismo. Quando o público entra na sala, está acontecendo uma espécie de ritual: “o Deus da Fortuna” cultuado. Depois, o deus toma a palavra e promete mundos e fundos. Faz as suas reclamações. Há aqui todos os elementos didáticos, o que eu acho ótimo: Eu sou o Capital, me alimento do trabalho não remunerado etc. Ele está montado no Trabalho, a imagem é ótima. Em seguida, temos um “achado”, e se bobear é a primeira vez que acontece no teatro brasileiro, porque sendo o material – imagens, personagens, tirados de referências chinesas – é uma maneira de pensar a situação do Brasil. O fato de ser um proprietário vítima das dívidas, e ele, proprietário com todo o seu séquito, que vai de escravo miserável no último grau a sobreviventes descendentes de escravo, gente que não tem história, enfim, é o gado que ele explora e ele mesmo é explorado pelo capital financeiro. Eu tenho a impressão que é a primeira vez que alguém fez isso no Brasil. Eu não tenho notícia de outra tentativa. Eu imaginei, conversando com meus botões, que essa ideia ocorreu a vocês, em parte, porque vocês são da Paraíba; em parte, porque vocês têm conhecimento da luta do MST. E, seguramente, porque vocês conhecem bem a história do Brasil, pelo menos numa certa linha que coincide com a minha: a definição da Burguesia brasileira – e seu atraso configurado na personagem Wang – como parte do Imperialismo e como procuradores do capital – o Grande Capital – e tendo a função de massacrar. Aí o massacre que ele produz vai desde a negociação da filha, passando por todas as misérias da vida doméstica nestas circunstâncias, que é super-determinada. Eu acho que tendo feito isso, o resto é lucro.

 
 Daniel Araújo – Somos nordestinos… .
 Iná Camargo – Vocês conhecem melhor que o “sul maravilha” essa verdade sobre o Brasil, está debaixo do nariz.
 Márcio Marciano – Tínhamos uma dificuldade no início: nossa intenção era seguir o esquema que Brecht propõe em seus diários de trabalho, quando alude à ideia de uma peça sobre o Deus da Fortuna. “O deus sai em viagem pelo continente e por onde passa promove crimes e assassinatos”. Uma espécie de estrutura de “estações”, uma série de “casos exemplares” sobre a ação desordenadora do capital na figura do deus. Durante o processo de criação, percebemos que não teríamos fôlego. Isso implicaria empreender uma dramaturgia para cada caso e depois articular esses casos numa trajetória única. Suponho que Brecht teve dificuldade semelhante e optou por fazer um caso particular que foi A Alma Boa de Setsuan
 Iná Camargo – O Deus da Fortuna me parece complementar à A Alma Boa. O ponto de partida sendo o fetiche encarnado do capital. O capital é ele mesmo o fetiche. Ora, relacioná-lo com deuses é ir para o abraço. A Alma Boa de Setsuan expõe uma figura: a acumulação primitiva. Vocês estão falando da mesma coisa e de outra coisa, esse é o ponto fundamental para quem dialoga com o Brecht; vocês estão tratando do cu do mundo sob a figura do capital financeiro. E o importante é que isto diz muito sobre a experiência do Brasil. Eu acho que este é o grande achado. A figura do Wang e todas as peripécias: vender a filha para casar com o filho do agiota, os conselhos… aliás, a velha é de gritar como composição , é de gritar, porque ela é completamente filha da puta, completamente, e, no entanto, ela é portadora da sabedoria dos que conseguiram sobreviver. Então isto que está na velha da peça traduz, por exemplo, a experiência de ex-escravos e a relação que ela tem lá dentro da casa é deste tipo. O senhor Wang tem medo dela. Aliás, ele tem medo dos empregados. Este é o ponto que me interessa: Wang, a Burguesia brasileira, ao mesmo tempo em que é massacrada, massacra. Tem medo tanto do capital financeiro, quanto dos trabalhadores. Mas não é para ter dó dele, porque ele é um assassino, um sacana, ele não vende a mãe porque a mãe já morreu, mas vende a filha, certo? Então, quando eu digo que eu gostei, eu não estou brincando, eu gostei muito.
 Paula Coelho – E a parte dos peregrinos, dos intermezzos? Iná Camargo – Ah, que delícia! Porque ali são figurações – como eu disse, é um resumo para a peça, subtítulo: Figurações do Fetichismo. Os peregrinos e os intelectuais: eu só não berrava pra não atrapalhar a cena nem a plateia, porque é isso aí, aliás, isso vem diretamente do Brecht, o esforço dos intelectuais para…
 Márcio Marciano – É inspirado em panfletos do Keynes
 Iná Camargo – É assim que a gente deve fazer. Aliás, vocês conhecem o que eu fiz com o Gilberto Freyre na nossa peça. Peguei um trecho, com referência, inclusive, e transformei em sermão do bispo. O bispo deu o texto do Gilberto Freyre e depois o ator fala: “Evangelho, segundo Gilberto Freyre, capítulo tal, versículo de tanto a tanto”. Você pode pegar lá o livro e ler o texto, exatamente. Isso a gente pode e deve fazer sempre.
 Márcio Marciano – Fazemos também citação direta ao Brecht: “O famigerado poeta Kin-jeh, bandoleiro das letras, salteador das ideias alheias”. Queríamos a todo custo inserir o fragmento do Brecht na peça. Aí criamos a cena dos bonecos.
 Iná Camargo – É uma maravilha. A Antigoninha é uma das paixões da minha vida. Aliás, neste capítulo, formas do teatro – vocês cobrem dois, três mil anos de história; vai da Antígona ao percurso do Brecht. E eu acho isso ótimo.
 Márcio Marciano – Em O Deus da Fortuna sentimos dificuldade de fazer a transposição da alegoria do capital para as determinações das relações no campo privado. Optamos por fazer a passagem por degraus. No início, a figuração maior do deus que ganha vida. Ele faz um prólogo que é absolutamente marxista.
 Iná Camargo – O deus é marxista!
 Márcio Marciano – Ele adverte o Trabalho: “Assuma feição humana, não basta atirar nos relógios.” Não é só fazer a revolução, é preciso manter viva a revolução. Depois tentamos fazer a figura do deus colar à personagem Cai Fu, o agiota. É uma operação que visa a humanizar a representação do capital.
 Iná Camargo – Mas não considero uma humanização, porque o agiota é uma figura, o agiota ali está representando bancos etc. etc., tanto faz. Eu acho que isso não é o problema, da mesma maneira que a relação do Wang com o agiota é uma figuração adequada, porque é a nossa experiência. A questão é – citando o recém-falecido Robert Kurtz: a nossa experiência cotidiana é ao mesmo tempo material e metafísica. Então, a parte metafísica, que é a parte conceitual, está presente nas relações, as mais elementares, inclusive, a do pai que empurra a filha para o casamento.
 Márcio Marciano – Tínhamos certo temor de manter dois planos, o plano da alegoria e o plano das determinações do capital no universo das relações privadas.
 Iná Camargo – Não. Porque a experiência cotidiana é inteiramente pautada por necessidades econômicas que atravessaram tudo, o tempo todo. Pois até aquela duplinha, que pesca, e o peixe voa, e “viva o Deus!” Aliás, o bicho do pé… – essa você pegou dos jesuítas, não é? – porque os jesuítas são especialistas em argumentos falaciosos. Exercício jesuítico: cai uma folha da árvore, prove a virgindade de Maria. Porque são insondáveis os desígnios do Espírito Santo. Portanto, as duas cenas são perfeitas. Eu falei: esses caras leram José de Anchieta. Porém – digressãozinha pessoal: a gente sabe disso, a gente ouve isso, eu recebo todos os dias mensagens por e-mail das provas da existência de Deus. O que, por sinal, está ficando cada vez mais forte exatamente porque a experiência está desmentindo, quanto menos fé, mais as pessoas se apegam às manifestações desse tipo. Então, as duas sequências são geniais, nesse sentido, porque aí, eu diria que elas dão o complemento para mostrar que desde o discurso do porta-voz do capital até os miseráveis, que a gente nem entende o que eles falam, atravessa e é o Deus da Fortuna o tempo todo. Aí tem Feuerbach, não é? Você andou lendo Feuerbach, confesse! É uma maravilha, porque é esse o ponto que interessa. Do ponto de vista materialista, é esse: a elaboração dos deuses, a explicação metafísica com base na experiência da vida cotidiana, que vai desde o peixe que voa até as formas de submissão ao agiota. São do mesmo nível: tanto os peregrinos, que são a ralé mesmo, o último nível da sociedade, até o Wang, que tem acesso direto à principal figuração do deus, que é o agiota. Mas o agiota, para quem tem experiência de agitprop, o agiota é um banqueiro como outro qualquer. E no caso, tem esse outro dado da experiência brasileira – o agiota, a que um pequeno proprietário brasileiro tem acesso, é o banquinho ali na esquina, o vagabundo, que é a figuração da peça: o agiota é o banqueiro vagabundo. Qualquer pessoa que tenha feito os oito primeiros graus da escola na hora percebe isso. Não tem que esquentar a cabeça.
 Márcio Marciano – Pensamos o seguinte: ao invés de sair do mais localizado regionalmente, e tentar, a partir daí, ir para o macro; resolvemos partir das determinações macro para chegar ao…            Iná Camargo – Mas aí você tem o trânsito, o tempo todo, e isso também é ótimo, é outra qualidade. Eu acho que as pessoas entendem. Estou perguntando.
Daniel Araújo – Tivemos queixas. Algumas pessoas dizem que a cena do julgamento se estende demais.
 Iná Camargo – Não devemos levar a sério essas impressões de varejo!
 Paula Coelho – Algumas pessoas não entendem, por exemplo, os intermezzos: “Por que tem aqueles caras falando uma língua que ninguém entende?”
 Iná Camargo – Mas aí é falta de disposição mental!
 Márcio Marciano – Na realidade, elas se desconcertam, porque mudamos a chave da recepção. Mas quando perguntamos: “Mas você não entendeu o quê?!” “Ah! Eu vi isso, isso, isso!” “Pois é, então você entendeu, é exatamente isso!”
 Iná Camargo – Então vamos lembrar a nossa situação, a nossa lama: por mais que a gente faça, explique, tal, tal, todo mundo – até pessoas que teoricamente estudam o assunto – vêm assistir com cabeça de quem assiste novela da Globo. Eles querem ritmo, querem que acelere: “Já entendi, já entendi; não precisa demorar tanto”. Não é verdade. A questão é a expectativa fetichista em relação ao espetáculo. A gente não pode levar a sério esse tipo de cobrança, que eu chamo de varejo. Cobrança de varejo corresponde a desejos de público da Globo. Se vier uma questão séria no geral, vale a pena discutir. Agora para essas é o que você fez, a operação didática: “Mas o que você não entendeu? Então você entendeu! Como você está dizendo que não entendeu?”
 Daniel Araújo – O Deus da Fortuna sempre foi apresentado num espaço muito parecido com este (Teatro de Arena), lá em João Pessoa, para quarenta pessoas. Não sabíamos como seria a recepção num teatro de grandes proporções. Fizemos em Natal uma apresentação para uma turma de escola técnica, adolescentes entre quinze e dezessete anos. O público veio abaixo com o espetáculo.
 Iná Camargo – Bingo! Vocês já têm a prova empírica de que a cena é clara, que a cena é didática no que tem que ser, é divertidíssima. Então, acabou. Não vai dar ouvido pra conversa de desocupado! Márcio Marciano – Iná, eu queria que você comentasse um pouquinho a cena dos colonos…
 Iná Camargo – Verdade! Ela é essencialmente verdadeira e por isso eu adorei. Aliás, por que é verdadeira? Porque continuamos aguardando a disposição das massas para a revolução. E também isso é uma verdade do marxismo. Marx dizia: As massas não são por si mesmas revolucionárias. Precisa ser criada uma situação insuportável e ela vai se tornar revolucionária se a classe dominante não tiver mais condição de dominar, como parece que está acontecendo na Espanha e na Grécia, hoje. Mas aqui parece que ainda não é verdade. Então, nesse sentido, vocês têm que ficar espertos, acompanhando a conjuntura, que se virar, a cena fica falsa. A cena é, digamos assim, crítica. Mas, por enquanto, ela é radicalmente verdadeira. Tive uma discussão sobre a peça que não vou mais conseguir reconstituir, mas que, em resumo, é sobre o discurso do deus sobre o trabalho: afirmaram que se tratava do discurso da peça. Eu falei: “Não, pera lá! Escuta, nós estudamos Brecht há mais de vinte anos. Você não vai me dizer: “Não, porque dá a impressão, porque não sei o quê, porque o porta-voz dos trabalhadores meio que repete…” Eu falei: “Aqui é uma questão de hegemonia ideológica. Enquanto não aparecer uma direção revolucionária para fazer a cabeça daqueles idiotas, eles vão papagaiar o que diz o capital financeiro, em diferentes formulações, mas a peça é verdadeira nesse sentido. Não me venha com essa prosa. Tem que olhar o que está sendo proposto.”
Daniel Araújo – E a Senhora Shu? Ela dá a palavra final: “Está na hora de dar um chute na bunda do deus”.
 Iná Camargo – Ela é a sobrevivente. Ela é um elemento histórico de muita força, porque ela sobreviveu a tudo, ela entende tudo e entende também a impotência. Por isso, ela acha que está na hora de dar um pé na bunda do deus.
 
* Iná Camargo Costa é pesquisadora, militante e integrante do movimento paulista de teatro de grupo. Autora de livros que abordam o teatro épico no Brasil, assistiu duas vezes O Deus da Fortuna em São Paulo, em julho de 2012 no Arena, quando aceitou gravar esta conversa com o coletivo alfenim, que agora transcrevemos no blog.

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  1. INCA - UFPB /

    Depois dessa afirmações da Iná Camargo será preciso rever o espetáculo?

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