ENTREVISTA DE MÁRCIO MARCIANO A CALINA BISPO

ENTREVISTA DE MÁRCIO MARCIANO A CALINA BISPO
 
TRATO ASSESSORIA DE IMPRENSA
 
Primeiro me faz uma avaliação da temporada e das mudanças que nela aconteceram, por exemplo, a substituição de Sôia Lira por Ana Marinho, e a própria mudança de espaço, que não é mais no palco do teatro.
 
Fazer uma temporada de um mês em João Pessoa tem sido uma experiência marcante e muito produtiva para o Alfenim. Nosso desejo é que os demais grupos da cidade também se ponham esse desafio. É preciso uma mudança de paradigma se quisermos de fato formar platéias. Precisamos acabar com a noção de evento que marca as produções teatrais na cidade. A continuidade de um espetáculo em cartaz é fundamental para que ele se mantenha vivo. Só assim o público poderá se programar para assistir a tudo o que a cidade oferece, e olhe que não é pouca coisa.

No nosso caso, foi interessante perceber através da reação do público as mudanças que o espetáculo sofreu com as substituições. Não se trata de comparar um ator com outro, não aconteceu apenas uma simples mudança de elenco, mas a integração de novos atores ao grupo. Isso implica uma mudança radical do entendimento do espetáculo e, por conseqüência, do projeto do próprio grupo. A história que narramos é a mesma, mas o olhar sobre ela mudou significativamente. Hoje as cenas parecem mais claras, mais bem-humoradas, as personagens finalmente foram postas numa perspectiva crítica. A entrada de novos atores exigiu que o espetáculo como um todo fosse recriado. São diferenças sutis, mas quem assistiu à versão anterior percebe que houve um salto de entendimento. Quanto ao espaço, as mudanças são sempre saudáveis. O espetáculo foi pensado para se adaptar sem perdas a qualquer canto. Em sua trajetória percebemos que o mais importante é manter o público bem próximo dos atores, já que a cena exige uma recepção que se dá pelas entrelinhas, embora mantenha seu poder de comunicação em espaços como o Teatro de Arena do Espaço Cultural, por exemplo, onde foi assistido por mais de 700 pessoas.
 
Impossível dizer que um espetáculo está finalizado (QQ), mas ele entrando em repertório qual é/será o próximo passo do Alfenim?
 
Você tem razão, na perspectiva de um grupo que trabalha com a noção de projeto para o futuro, um espetáculo nunca chega ao fim, ele entra em repertório e se modifica a cada nova apresentação porque incorpora a experiência do trabalho em sala de ensaio, que não pára. Isso é importante, pois assim podemos manter um olhar dialetizante entre o que fizemos e o que estamos fazendo atualmente. O próximo passo é sempre a negação do anterior. Isso quer dizer que nos ensaios de “Milagre Brasileiro”, estamos pondo em perspectiva crítica os procedimentos utilizados na construção do “Quebra-Quilos”. O resultado disso será a afirmação em chave contraditória de seus acertos conceituais e formais. Na prática, estamos evitando aquilo que sabemos que funciona em cena para descobrir formas novas de narrar. É um trabalho cansativo, mas muito salutar. Estar o tempo todo “no escuro” aguça nosso olhar para as contradições que nos rodeiam hoje. E o que importa para o grupo é lançar-se a esse desafio de não repetir uma fórmula. O “Quebra-Quilos”, num certo sentido, sintetizou um encontro de experiências múltiplas: de um lado a minha pesquisa em dramaturgia, iniciada em São Paulo na Companhia do Latão, de outro a experiência diversa de atores de gerações distintas. Já no “Milagre Brasileiro”, não se trata mais de um encontro, mas de um convívio diário entre criadores que já nomeiam as exigências do ofício com palavras semelhantes. Isso significa uma grande diferença. Para usar uma metáfora bíblica, se no QQ éramos Adão e Eva (sem distinção de sexo), agora caímos no mundo, mordemos o fruto proibido do conhecimento mútuo e isso representa uma enorme responsabilidade.
 
Como está sendo conduzido esse processo de construção/criação do “Milagre Brasileiro”?
 
Nunca tive coragem de subir numa montanha russa, mas imagino que o gozo seja semelhante: acelerações e freadas bruscas, voltas vertiginosas sobre nós mesmos, suspensões e quedas livres, enjôo no estômago e coração na boca, porém sempre na mesma direção: sabemos de onde partimos e aonde devemos chegar. O processo começou com um desafio programático: convidamos Norberto Presta (dramaturgo/diretor e ator ítalo-argentino que esteve em setembro em João Pessoa com o espetáculo “Fragmentos de Vidas Divididas”) para trabalhar conosco por dez dias. Muita gente estranhou. O velho preconceito que cataloga o que desconhece e diz que se você é “brechtiano”, você não pode partilhar do mesmo espaço de trabalho com alguém que vem do ISTA, a Escola de Eugenio Barba. Na verdade, preconceito à parte, nos interessava entender como se dá na prática a construção de um espetáculo que se ergue na fronteira entre teatro e dança. Não que desejamos fazer um espetáculo nesses moldes, mas porque o assunto que elegemos – o período mais violento do terrorismo de estado que foi a Ditadura Militar – exigia uma abordagem diferente da que utilizamos no QQ. Não estamos interessados em criar um painel dos fatos históricos, até porque, muito do que aconteceu naqueles anos de chumbo ainda não foi revelado. O que nos mobiliza é exatamente a impossibilidade de, como brasileiros, contarmos esse fragmento escabroso de nossa História. É justamente essa dificuldade que está sendo tematizada na cena, ela exige uma narratividade que não pode se estabelecer apenas pelo discurso, o que nos faz experimentar novas formas de dramaturgia. Nesse sentido o trabalho com o Presta foi muito produtivo na medida em que ele nos revelou o que não queremos fazer. O corpo-a-corpo com os materiais sobre esse período histórico – depoimentos de torturados e torturadores, notícias de jornal, análises à direita e à esquerda dos descaminhos da luta armada, fotos, documentários, cinema e literatura brasileira e latino-americana etc – tem sido espinhoso e necessário. Se nossa ignorância sobre o que de fato aconteceu era grande, agora, depois de dois meses de intensa pesquisa, ela é bem maior, mas intuímos que é possível um olhar de entendimento sobre o descalabro cometido pelas forças da repressão. Penso que o “Milagre Brasileiro” será um grito silencioso e modesto, mas sincero e com a esperança de que não seja esquecida a memória da luta, para que não prevaleça a versão falsificada dos pretensos pacificadores.
 
Há alguma relação entre “Quebra-Quilos” e “Milagre Brasileiro”?
 
O “Milagre Brasileiro” não seria possível sem o QQ. É uma relação de gênese e gestação. Somente porque fizemos o QQ nos entendemos como grupo. E só nos entendemos como grupo porque estamos dando continuidade a essa experiência com o “Milagre Brasileiro”. Nós nos refundamos diariamente na sala de ensaios. A tentativa de negar o QQ é que nos faz avançar nessa nova empreitada.
 
O que aproxima e distancia esses dois espetáculos dentro do grupo?
 
Mais uma vez estamos estudando um período obscuro da História brasileira. É nosso método para nos entendermos como artistas, empenhados em olhar criticamente as contradições do Brasil hoje. Poderia dizer que o que aproxima os dois espetáculos é justamente uma questão de método. Estamos desenvolvendo no grupo o gosto pela contradição, pelo trabalho em via negativa. Olhar a História como o anjo de Paul Klee, segundo as iluminações de Walter Benjamin. Para muitos, isso já deu o que tinha que dar, mas para nós, ainda é parte do aprendizado, seu componente de prazer. Quanto às diferenças, no “Milagre Brasileiro” estamos nos permitindo o sobrevôo no abismo. Experimentando uma dramaturgia menos discursiva, mais apoiada nas imagens do corpo em situação de risco, despersonalizado. Isso se dá como exigência do assunto e não por mero capricho formalista, afinal estamos tratando de desaparecidos. O absurdo que representa o desaparecimento de um ente, a negação absoluta da existência do corpo exige uma forma peculiar de narratividade. Essa radicalidade do assunto está impondo a radicalidade da forma.
 
Esse novo processo se fundamenta teoricamente em quê?
 
Não podemos ficar alheios ao embate teórico entre os limites e as potencialidades da fábula e da personagem na cena contemporânea, assim como ao apagamento das fronteiras entre as diversas linguagens e tecnologias que coabitam o mesmo espaço poético. Não podemos ficar alheios à contumaz batalha para negar a utilidade de Brecht e aos meneios da crítica para deslocar a política do campo dos antagonismos de classe para o terreno dos afetos privados. Não podemos ficar alheios aos avanços teóricos no âmbito da performance e das intervenções poéticas na lógica do cotidiano. O teatro continua sendo uma das formas artísticas mais contundentes e lúdicas de diálogo com a sociedade e um Teatro que quer se manter vivo deve fazer o constante exercício da própria negação. Estamos imersos na espuma das fricções teóricas, tentando o mergulho necessário para ver com maior clareza. É uma questão de fôlego e oportunidade para cortar a onda pós-dramática no momento propício, sob pena de tomarmos um caldo e morrermos na praia.
 
E por fim, quero uma retrospectiva sua comparando o processo de montagem do “Quebra-Quilos” com esse novo, observando sua relação com o teatro paraibano antes do QQ e agora com o “Milagre Brasileiro”, ou seja as condições, suas informações sobre a forma de fazer teatro, o que você acha que mudou, não mudou, e em você, que mudanças esses processos vem provocando no seu fazer teatro, agora aqui na Paraíba.
 
Os tempos são outros. Já não sou o forasteiro com algumas novidades na bagagem de três anos atrás. Eu e as pessoas que trabalham com Teatro na cidade mais ou menos já nos conhecemos. Do ponto de vista das condições materiais para o trabalho com o Alfenim, vivemos um momento precário, mas infinitamente melhor do que quando começamos. Temos conseguido vencer alguns Editais e isso nos dá um pouco mais de condições de trabalho. É preciso enfatizar o apoio que estamos recebendo do Colégio Pio X, que nos ofereceu uma residência artística. Quanto à produção teatral na cidade, só tenho motivos para me alegrar. Surgiram novos grupos, outros mais antigos estão se rearticulando. A qualidade dos trabalhos é uma evidência de que o Teatro Paraibano segue com vigor. Ainda falta muito que fazer no sentido da profissionalização dos grupos. Também é preciso ampliar os canais de comunicação entre os mesmos, fortalecer o fórum de Teatro para que possamos cobrar junto ao poder público o reconhecimento de nossa importância social, cultural e artística. Isso implica amadurecimento e responsabilidade que virão eu acredito, com o tempo. Também é importante destacar o papel do Departamento de Teatro da UFPB, que tem possibilitado um trânsito maior entre a produção e a reflexão teatral na cidade. Como fazedor de teatro, isso só me incentiva a trabalhar mais. Acho que devemos erguer um brinde diário à resistência dos fazedores de Teatro na Paraíba.

Deixe uma resposta

Responda para enviar * Time limit is exhausted. Please reload the CAPTCHA.

                 
%d blogueiros gostam disto: