ENTREVISTA COM MÁRCIO MARCIANO À FOLHA DE S.PAULO

O diretor e dramaturgo, Márcio Marciano, concedeu entrevista à jornalista Gabriela Mellão, da Folha de S.Paulo, para a elaboração de matéria sobre grupos de teatro do Norte e Nordeste que estão em temporada em São Paulo. Leia abaixo, as questões formuladas para a edição da reportagem publicada na Folha Ilustrada, no dia 12 de julho.

Gabriela Mellão- Qual a importância de se apresentar (e se destacar) em SP para vocês, um grupo de fora do eixo? E as dificuldades?
Márcio Marciano- As dificuldades são imensas, mas não incontornáveis. Somos uma equipe de 14 pessoas, é difícil viajar com um grupo desse porte por razões óbvias, é muito caro, dependemos de editais de circulação ou de ocupação de equipamentos culturais públicos, como é o caso do Arena. Em 2010, estivemos em São Paulo, ocupando a Sala Renée Gumiel, também da Funarte. Para o Coletivo de Teatro Alfenim, essas temporadas são fundamentais, é uma oportunidade de apresentar os resultados de nossa pesquisa. Em cinco anos de existência, o grupo já criou cinco espetáculos com dramaturgia própria. Nesta temporada de ocupação do Arena, como grupo convidado da Companhia do Latão, vamos apresentar parte do nosso repertório, além de manter as atividades habituais de ensaio. Como fazemos um teatro marcadamente na contramão, estamos duplamente à margem do mercado cultural do eixo, tanto pela distância geográfica quanto pelo posicionamento político. Neste sentido, estar no Arena é importantíssimo por tudo o que esse espaço representa. 

Gabriela Mellão- Você que já esteve nos dois lados da história, quais as dificuldades que um grupo de fora do eixo tem, que um grupo paulista não tem?
Márcio Marciano- Para o tipo de teatro que produzimos, isto é, um teatro de resistência, que procura desmascarar as estratégias de dominação material e simbólica da elite, com vista a produzir um olhar crítico e produtivo sobre a realidade brasileira, não faz muita diferença estar em São Paulo, em João Pessoa ou em qualquer outra encruzilhada do país. Estamos sempre à margem, e é desse lugar que lançamos nossa munição crítica. É evidente que o Movimento de Teatro de Grupo em São Paulo obteve conquistas históricas e isso possibilita uma maior interlocução, já que há mais grupos operando na mesma perspectiva. Contudo, é um engano pensar que as dificuldades existem por conta de diferenças regionais. É claro que não dá para comparar a riqueza da produção em São Paulo com a precariedade técnica de outras regiões do país, mas a diferença maior não é técnica, e sim, política. Um grupo que não aceita sujeitar seu projeto artístico à lógica da circulação da indústria cultural, encontrará obstáculos semelhantes, seja em São Paulo, seja em qualquer cidade do Brasil.
Gabriela Mellão- Ajuda ter o Latão como “padrinho” desta mostra?
Márcio Marciano- “Padrinho”? Julgo mais adequado dizer “parceiro”, já que os projetos artísticos de ambos os grupos necessariamente têm muitos pontos em comum, afinal, eu e Sérgio de Carvalho mantivemos uma parceria de dez anos. O Coletivo de Teatro Alfenim é, em certo sentido, uma continuação da pesquisa em dramaturgia que comecei a desenvolver no Latão. Agora, não dá para negar que essa parceria é muito bem vinda, já que é uma oportunidade única de estreitar o intercâmbio crítico entre os grupos. Além disso, contamos com a curiosidade do público que o Latão vem inventando e formando ao longo de seus 15 anos de atividade artística e política na cidade. Esperamos que esse público venha conferir nosso trabalho. Se a crítica especializada comparecer, estaremos de portas abertas.
Gabriela Mellão- Sobre o que O Deus da Fortuna trata e o que inspirou o espetáculo?
Márcio Marciano- O espetáculo procura discutir em chave cômica o processo de volatilização do capital. Parte de um fragmento dos diários de trabalho de Bertolt Brecht, no qual ele anota o desejo de escrever uma peça sobre esse deus, muito popular na China. Identificamos o Deus ao Capital e, a partir daí, criamos uma fábula chinesa que narra a história de um antigo proprietário de terras obrigado a vender sua filha para pagar dívidas. O entrecho da comédia clássica serve de pretexto para discutir o processo de transformação da acumulação primitiva nas formas contemporâneas de financeirização do capital. Trata-se de uma alegoria sobre a atual crise de expansão do capitalismo financeirizado.
Gabriela Mellão- O que O Deus da Fortuna, Milagre Brasileiro e Histórias de Sem Réis têm em comum?
Márcio Marciano- Os três espetáculos tratam de temas que frequentam o noticiário atual. O Deus da Fortuna aborda a crise do capitalismo em seu atual estágio de expansão financeira. Milagre Brasileiro trata dos desaparecidos políticos num momento em que a Comissão da Verdade inicia seu trabalho de investigação sobre os crimes cometidos pela Ditadura. Histórias de Sem Réis compra depoimentos de passantes nas ruas para refletir sobre a dimensão histórica de nossa subjetividade. Além da abordagem crítica sobre esses temas, os espetáculos têm em comum a ironia e a comicidade na forma como as situações são retratadas. Para além dessas semelhanças, penso que o elemento unificador das três montagens é o método dialético de construção da narrativa, cuja principal característica é o desvelamento das contradições de modo a estimular no público sua prazerosa e divertida capacidade de reflexão crítica.

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