ENTREVISTA AO JORNAL A NOVA DEMOCRACIA

Entrevista de Márcio Marciano a Ana Lúcia Nunes do Jornal A Nova Democracia (RJ)

A Nova Democracia: Por que o Alfenim é um laboratório e não um grupo teatral?
Márcio Marciano: A ideia de laboratório surge de uma necessidade de estudo. Entramos na sala de ensaio com o propósito de estudar algum assunto que nos mobilize, um assunto que diga respeito à nossa vida, como brasileiros e cidadãos. O processo de aproximação aos temas se dá por meio de experimentos. Tentamos reproduzir uma atitude científica, estabelecemos hipóteses de trabalho e realizamos experimentos cênicos que possam dar forma aos conteúdos estudados. A cena é produto deste processo permanente de experimentação, por isso nós procuramos dar este nome. Todos os artistas trabalhadores que compõem o Coletivo participam. Então, ao invés do olhar do especialista, seja o ator, o dramaturgo, o iluminador, nós temos vários pesquisadores, empenhados na criação de uma autoria plural. Nós usamos esse caráter experimental para todos os processos de criação.
AND: É por isso então que vocês chamam de dramaturgia em processo?
MM: Exatamente. Essa ideia foi criada a partir desse corpo a corpo com o material que emerge das diversas tentativas e erros. Como dramaturgo, tenho a incumbência de organizar o material das improvisações e estabelecer o texto final, após um trabalho de reelaboração que é feito fora da sala de ensaio. É quando dou um tratamento mais literário ao texto que é produzido na sala. O que chama a atenção é que as falas provêm não de uma elaboração prévia, mas como produto da ação criada pelos atores. Neste sentido, costumamos brincar dizendo que o texto não é importante, já que ele se materializa como texto somente às vésperas da estreia. 
AND: E todos os componentes do coletivo têm uma participação ativa neste processo de criação?
MM: Sem dúvida, porque como trabalhamos com o processo colaborativo, todos os integrantes participam. Incentivamos na sala o exercício de uma autonomia criativa para compor as ideias, realizar as adaptações e propor materiais. Os materiais são diversos e vão desde poemas, textos literários, recortes de jornais, qualquer tipo de material é levado para o processo de experimentação, quando todos naturalmente contribuem para o desenvolvimento da ideia.
AND: Quantas pessoas participam e de onde elas são?
MM: A equipe atual tem 12 pessoas. Eu venho de São Paulo, mas há gente que veio do Rio, de Minas, e de outros estados do Nordeste.
AND: Qual a influência da Cia do Latão no Alfenim?
MM: Na verdade, o meu processo de formação como dramaturgo está muito ligado à Cia do Latão. Eu participei da criação e fiquei no Latão por 10 anos. Então o meu processo de dramaturgia, minha forma de trabalhar, surgiu na Cia do Latão. Minha ida para João Pessoa é um desdobramento, uma continuação desse trabalho de pesquisa que eu já vinha desenvolvendo em São Paulo. Naturalmente, aqui na Paraíba, absorvo a influência do lugar, sua história, sua localização geográfica, sua cultura, seus costumes… Há um embate permanente e muito produtivo com o olhar dos artistas paraibanos, mas, apesar disso, ainda é um desdobramento de um trabalho que começou na Cia do Latão.
AND: Quais as principais atividades além da montagem dos espetáculos?
MM: Tudo gira em torno dos estudos para a montagem. Durante o processo, nós realizamos seminários, palestras, chamamos gente para falar sobre o assunto que estamos estudando. São várias atividades que visam a contribuir, de alguma maneira, para a criação do espetáculo. Temos também um espaço de formação, através de oficinas. Algumas questões trabalhadas nas oficinas são inseridas na montagem das obras. São ações paralelas, mas ligadas às montagens.
AND: Nas oficinas que vocês realizam já surgiu algum ator que acabou fazendo parte do Coletivo?
MM: A equipe atual tem hoje quatro pessoas que surgiram das últimas oficinas. Três atores e nossa assistente de produção, que também faz assistência de direção. Todos passaram por esse processo de formação.
AND: Como surgiu o nome Teatro Alfenim?
MM: O Alfenim é um doce típico da Paraíba, que é uma espécie de rapadura. Ela é batida muitas vezes até ficar esbranquiçada. Geralmente, tem a forma do símbolo matemático que representa o “infinito”, usado na logo do Coletivo. No nosso caso, o símbolo é repetido como rascunho várias vezes, uma sobre a outra. Em nenhuma delas, a forma se completa. Pensamos que isso diz muito sobre o modo como nos vemos: infinitude e incompletude. É uma forma de remeter ao lugar de origem e, ao mesmo tempo, apontar para o futuro. Também incluímos no nome a palavra “coletivo”, para dar a dimensão plural que desejamos conferir ao trabalho.

AND: Você poderia falar um pouco sobre os espetáculos montados até hoje?

MM: Quebra-Quilos, nosso primeiro espetáculo, surge de uma necessidade minha, como dramaturgo, quando vim para a Paraíba, de estudar um pouquinho a história do estado para eleger um tema que não fosse trazido de São Paulo. Eu queria trabalhar com um tema da região. Aí veio a ideia de trabalhar com a revolta popular dos quebra-quilos. Era um assunto que eu desconhecia. Essa revolta aconteceu devido à implantação do sistema métrico-decimal ocorrida em fins do século XIX, para que o Brasil se ajustasse ao circuito mercantil internacional.  Na época da montagem, ainda era recente o processo de passagem do cruzado para o real, as confusões decorrentes das URVs, uma abstração arbitrária imposta de cima para baixo, semelhantemente ao que havia ocorrido com o sistema métrico. Também acabara de ocorrer o ataque orquestrado pelo PCC, que havia deixado a Avenida Paulista deserta, às duas horas da tarde. O medo que tomou conta da sociedade naquele momento também era semelhante ao que precedia os ataques dos quebra-quilos, sujeitos alijados do processo produtivo e dispostos à desordem como forma de reação. Eu entendi vários aspectos da sociabilidade paraibana trabalhando com esse tema. Chegando ao estado foi muito interessante trabalhar com artistas paraibanos falando de uma história da sua terra.
AND: Qual foi a recepção da população a esta história tão local?
MM: Foi muito curioso porque apesar de ser um assunto da terra, muitos paraibanos não sabiam o motivo da revolta, não conheciam a história. Então foi, na verdade, uma novidade, tanto no que se refere ao assunto quanto à forma. Tudo era bastante novo no teatro da Paraíba, o teatro colaborativo, com uma cena altamente narrativa, dialetizada, então o tensionamento entre essa forma e um conteúdo que, apesar de localizado no século XIX, falava de temas da atualidade, acabou gerando uma vibração em todas as cidades pelas quais o Coletivo passou.
AND: E depois vocês montaram o Milagre Brasileiro?
MM: Aí com o Milagre Brasileiro, a nossa intenção foi trabalhar com um tema mais abrangente, que se referia ao Brasil. Como na época se estava falando muito sobre a Comissão Nacional da Verdade, nos pusemos a tarefa de tocar neste assunto, de conhecer um pouco mais e, a partir daí, criar o espetáculo. Agora, por ser um assunto de tão difícil abordagem, a dramaturgia também reflete um pouco essa dificuldade. Ela não retrata necessariamente a trajetória de um militante da luta armada, que tenha resistido ao golpe. Nós vamos buscar na Antígona elementos para atravessar o assunto de uma forma, digamos, não usual; usamos também depoimentos da época, depoimentos de militantes e de pessoas próximas aos militantes. Construímos uma narrativa que é totalmente atravessada por estes materiais. Você tem a figura do desaparecido político. O nosso grande desafio foi dar corpo à figura do desaparecido político, aquele sujeito que foi suprimido da História.  Desde a estreia, em cada lugar que nós apresentamos o Milagre Brasileiro encontramos uma reação muito intensa.
AND: Como tem sido tratar este tema tão atual e pungente na sociedade, já que há muitos debates com a criação da CNV e também com o fato de que até hoje não haja nenhuma punição para os torturadores?
MM: Na verdade, sempre percebemos nessa reação um pouco da dimensão da qualidade do espetáculo. Ao final das apresentações, procuramos realizar um debate com a plateia. E nós já tivemos familiares de desaparecidos políticos, perseguidos pela repressão, pessoas que pesquisam o tema. E isso é muito intenso porque além de estudar o tema para montar, temos a possibilidade de promover esse debate, que é sempre muito acalorado. Na origem disso está o desejo de o povo brasileiro tentar conhecer um pouco melhor dessa parte da história que foi sistematicamente suprimida de todos nós. Uma coisa que a gente queria colocar em cena era a Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Quando se fala “A Marcha da Família” lembramos daquela que entrou para a História, mas para a nossa surpresa, foram mais de 50 marchas pelo Brasil inteiro. Essa manifestação da classe média em apoio ao golpe tinha essa dimensão que não é mostrada pela história oficial. A nossa pesquisa serviu para conhecermos um pouco mais esses indivíduos que aparentemente não concordavam com a Ditadura, mas que no início apoiavam o golpe. Então o espetáculo toma emprestada a família pervertida da obra de Nelson Rodrigues, Álbum de Família, e põe em cena uma família de caveiras que adere ao golpe.
AND: O Espetáculo Histórias de Sem Réis é chamado por vocês de intervenção urbana, em que consiste esta intervenção?
MM: Os nossos espetáculos anteriores foram feitos para espaços muito pequenos, a cena exigia uma relação de proximidade com o público. Os espetáculos eram para 60, 80, 100 pessoas no máximo. E nós sentimos a necessidade de fazer um espetáculo mais amplo, então resolvemos ir para a rua e experimentar. E no Coletivo não havia ninguém com essa experiência de rua. Nós fomos para o centro de João Pessoa, um lugar emblemático na cidade que se chama “Ponto de Cem Réis”, local que servia de ponto final das linhas de bonde. É uma grande praça no centro histórico da cidade. Fomos para essa praça e começamos a gravar o depoimento das pessoas. A nossa ideia era criar uma dramaturgia a partir desses depoimentos. Mas percebemos que o depoimento delas era tão poderoso que nossa intervenção dramatúrgica não estaria à altura deles. Daí veio a ideia de capturar os depoimentos em vídeo e fazer alguma coisa com eles numa segunda etapa e daí pensamos numa estrutura de intervenção. Como funciona? Vamos para uma praça, colocamos uma placa “Compramos sua história, pagamos à vista até cinco reais”. Ligamos a câmera e esperamos as pessoas se aproximarem para contar uma história pessoal ou que elas achem importante. Inicialmente, a intervenção tinha cenas e desenvolvia uma “fábula”, sobre um policial, o “Sem Réis”, que se via diante do dilema de aceitar ou não um suborno. Depois percebemos que mais importante do que contar uma história era ouvir as histórias. Então, a intervenção hoje é só isso: chegamos à praça e recolhemos histórias. É interessante ver como as pessoas param para ouvir as histórias de alguém que, até então, era invisível na praça. No geral, as pessoas que vêm para contar as histórias são muito humildes, desempregados, drogados, bêbados, pedintes, às vezes, algum trabalhador informal. Quando elas se sentam no banquinho e começam a contar a história para câmera, elas se transformam, podemos perceber sua dimensão de sujeito alijado violentamente do processo produtivo. A solidariedade é imediata, apesar das reações contraditórias que o depoimento suscita. A praça onde o espetáculo começou tem o nome de “Cem Réis”, com C. O nosso espetáculo se chama Sem Réis com S porque nós percebemos que a maioria das pessoas que vem contar as histórias são sem réis, pessoas que precisam de um canal de comunicação. O que o espetáculo faz é promover esse encontro entre sem réis e sem réis. Estamos editando esse material bruto, que gravamos por várias capitais e cidades do interior do Nordeste, e devemos lançar até o final de abril uma espécie de experimento videográfico com esses depoimentos.
AND: A História de Sem Réis passou por quantas cidades?
MM: Na Paraíba, umas oito cidades. Fora daqui, fizemos em Recife, Fortaleza, Natal, Crato, Juazeiro do Norte, Caruaru, Mossoró e São Paulo. Temos mais de 4 horas de material filmado, e o vídeo deve ficar com 20 minutos, é uma coisa pequena, inicial.
AND: O Deus da Fortuna é uma obra que explora algo mais complicado sobre o capital
financeiro, como tem sido a receptividade?
MM: Estamos muito satisfeitos com a peça. As apresentações no Rio, no pré-carnaval, foram muito boas. O espetáculo tem se afirmado como uma mostra bastante sarcástica e bem-humorada desse momento que estamos vivendo. Para escrever O Deus da Fortuna, sentimos a necessidade de promover um seminário que chamamos de “A metafísica do Capital” para tentar entender como se dá esse processo de volatilização e abstratizaçãototal da relação entre o capital e o trabalho. Para isso nós chamamos pessoas da Filosofia, da Economia, do Direito, para nos esclarecer como esse processo se desenvolve. E paralelo a esse estudo, trabalhamos a partir das sugestões da obra de Brecht. Na verdade, a ideia dessa montagem surgiu de uma anotação dos diários de trabalho de Brecht, quando ele fala que desejava escrever uma parábola sobre esse deus muito popular na China, o Deus da Fortuna. Esse comentário foi escrito no exílio, nos Estados Unidos, sob o impacto do colosso capitalista americano.  Sua intenção era demonstrar como o capital, ao mesmo tempo em que promete a fortuna, promove, na verdade, o caos e a desordem. Ele não chegou a escrever essa peça, mas uma outra, a Alma boa de Set-Suan. É a história de uma prostituta que acolhe três deuses e recebe em troca uma pequena quantia em dinheiro. Ao contrário das expectativas, essa pequena fortuna só trará desgraça à ingênua prostituta que acredita ser possível praticar a bondade num mundo regido pelo cálculo e pela exploração do homem pelo homem.  Nossa fábula trata de um outro estágio do capitalismo. Para falar de um assunto tão abstrato, decidimos estudar a comédia clássica (Molière, Aristófanes, Ariano Suassuna) de forma a encontrar canais mais diretos de comunicação com o público. Percebemos que a partir daí teríamos condições de contar uma história com um assunto tão complexo. O Deus da Fortuna usa a comédia clássica para contar a história de um capitalista à moda antiga que está em crise e tenta vender a própria filha como forma de pagar suas dívidas. Ele recebe a visita do Deus da Fortuna, que o ensina a abandonar as velhas formas da acumulação primitiva do capital e a investir no mercado financeiro.
AND: Os textos dos espetáculos são teus ou são colaborativos?
MM: O texto sempre acolhe as contribuições surgidas na sala de ensaio, mas ele exige uma refacção de forma a tornar-se mais poético e literário. Esse trabalho eu realizo fora da sala. É preciso fazer um trabalho de ajuste da palavra, da cena. Eu assino o texto final, mas a dramaturgia provém daquele trabalho colaborativo.
AND: E quais são os próximos projetos do Coletivo?
MM: Estamos começando a estudar a obra do Machado de Assis. A ideia é tentar entender um pouco o Brasil de hoje a partir dos elementos da obra do Machado. Escolhemos como obras de acesso “Quincas Borba” e, por extensão, “Memórias Póstumas de Brás Cuba”. Mas devemos trabalhar, sobretudo, com a figura do sujeito que enriquece da noite para o dia e também que perde a sua fortuna do dia para a noite. Estamos interessados em estudar como se dá o processo ideológico de assimilação dos valores de outra classe. Isso está muito presente no “Quincas Borba” e pensamos que isso vai ser um mote interessante para falar do Brasil atual. Mas ela pode tomar um outro rumo, vai depender do que surgir na sala de ensaio.
AND: E a gente pode esperar a montagem para este ano ainda?
MM: A ideia é estrear no segundo semestre de 2013. Paralelo a isto, devemos estrear em maio Brevidades, que fala sobre o mal de Alzheimer. É um texto que escrevi especialmente para Zezita Matos, atriz paraibana, que já tem mais de 50 anos de palco. Ela é uma das fundadoras do Alfenim. Trata-se de um monólogo que retrata a vida de uma ex-atriz, que está impossibilitada de atuar porque foi acometida pelo mal de Alzheimer.

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  1. Rodrigo /

    Ótima entrevista. Recomendo a todos que amam o teatro.

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