É NOSSO DEVER NÃO DESLEMBRAR

Milagre Brasileiro Familia caveira

A memória do que fui pertence aos meus/É privada
Sem interesse maior que uma lembrança particular
Um nome…/Apenas a dor da ausência/Da humilhação.
Mas minha condição é pública/Um número impresso:
Nem morto, nem vivo/Imaterial.
Suprimida a prova irrefutável/Exaurido o músculo da razão
Execrado o argumento da esperança
De mim resta apenas a prova inconteste/A eloquência do ato irrevogável:
Em sua derradeira festa/Meu cadáver não compareceu
Porque me fizeram desaparecer/Desapareço todos os dias
Sou o buraco no crânio da consciência nacional

 (Milagre Brasileiro espetáculo do Coletivo Alfenim, 2010).

Primeiro de abril é o dia da mentira. Primeiro de abril é também o dia da infâmia.  Foi no tenebroso primeiro de abril de 1964 que parte das Forças Armadas de nosso país, a parte mais autoritária, mais fascista e assassina, marchou contra cidadãos inocentes, promovendo o terror e semeando a morte em solo brasileiro.

Sob pretexto de manter a ordem, a família e a propriedade, os chacais da Ditadura torturaram e mataram impunemente. Não estavam sozinhos. Uma chusma de boçais que se autoproclamam cidadãos de bem, uma chusma de bem-intencionados reacionários, legitimaram, com seu imbecil ufanismo e eufórica perversão consumista, toda sorte de injúria e humilhação, as mais vis formas de delação e tortura, as mais abjetas e ignominiosas formas de corrupção e violência.

Primeiro de abril é o dia da infâmia, porque neste dia, desde 1964, os militares canalhas insistem em deslembrar sua conduta assassina. É o dia da infâmia, porque uma parcela canalha de nossa elite econômica insiste em acobertar covardemente esses crimes. É o dia da mentira porque insistem em proclamar inocência em atos sistemáticos de extermínio. Extermínio de pessoas, extermínio de ideais, extermínio de sonhos e esperanças.  

Há 50 anos, o Brasil amanheceu na infâmia. Amanheceu sob a ameaça de perseguição e morte daqueles que lutavam por igualdade e dignidade. Amanheceu sob a ameaça que se cumpriria em poucos dias de ver derramado o sangue daqueles que exigiam seus direitos e liberdades democráticas, o sangue daqueles, estudantes, intelectuais, operários, camponeses, professores, cientistas e artistas que vislumbravam um grandioso horizonte de igualdade e fraternidade entre irmãos.

Por isso é nosso dever não deslembrar. É nosso dever celebrar a memória e os atos de cada um dos incontáveis brasileiros conhecidos ou anônimos que dedicaram sua vida ao confronto desigual com a brutalidade da Ditadura Militar. É nosso dever, alertar as novas gerações para que a versão oficial, a versão infamante da direita e seus comparsas não cale a memória de luta pela igualdade neste país.

As feridas de 1964 não cicatrizarão com o mea culpa canalha dos assassinos de plantão. As feridas de 1964 não cicatrizarão com o mea culpa das empresas de comunicação e seus sócios do mercado, com o mea culpa infamante de banqueiros ou generais atormentados pelo fantasma do arrependimento e da consumação inexorável que se avizinha.

É preciso punir os torturadores antes que o túmulo os proteja de pagar por seus crimes. É preciso punir os responsáveis pela máquina do extermínio. É preciso não deslembrar que os culpados estão à solta e em pleno gozo de seus delitos. É preciso fazer justiça à memória dos inocentes. É nosso dever não deslembrar. 

 

1º de abril de 2014,

Márcio Marciano
Coletivo de Teatro Alfenim 

Foto por Raquel Diniz

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