Coletivo Alfenim prospecta Machado, por Rafael Duarte

Crédito: Pablo Pinheiro

O que nos resta do experimento apresentado pelo Coletivo de Teatro Alfenim (PB) sobre fragmentos da obra de Machado de Assis é dizer que o romance Quincas Borba é mais atual do que a própria realidade. Apresentado durante o festival O Mundo Inteiro É um Palco, em Natal, o Ensaio sobre o humanitismo revela um Machado irônico, contestador e, sobretudo, sarcástico. Estivesse hoje entre nós, provavelmente o patrono da Academia Brasileira de Letras estaria escrevendo sobre as mesmas contradições de um país hipócrita e bonito por natureza.

A criação traz a história de Rubião, discípulo ingênuo de Quincas Borba, um burguês escravocrata e filósofo de botequim que dá o próprio nome ao cachorro de estimação inebriado pelo Humanitismo, uma espécie de nova filosofia criada por ele. Com a morte do mestre, Rubião recebe toda a herança, mas é obrigado a zelar pelo Quincas de quatro patas.De tanto usufruir da alta sociedade carioca, o sujeito enlouquece. O texto discute a diferença de classes, o amor, a hipocrisia e a psicanálise.  O grupo joga em cena Quincas Borba, mas toca em outros romances de Assis. Há umas pitadas de O alienista e de Memórias póstumas de Brás Cubas.

Impossível não relacionar o tratamento dado aos negros no final do século 19, tempos de escravidão, à forma como a sociedade de hoje ainda trata os excluídos pela cor do dinheiro. Num dos primeiros diálogos da peça, entre Quincas e seu discípulo Rubião, não há quase diferença entre os preconceitos do passado e do presente. É a sobreposição do centro sobre a periferia, da zona sul sobre a zona norte.

Um Machado contemporâneo surge pelas mãos do dramaturgo Márcio Marciano logo no prólogo da peça, fora do teatro, quando ele nos apresenta o julgamento e a condenação por enforcamento de um negro representado por um ator branco e um carrasco representado por uma atriz. Esqueçam as cores que os olhos veem. Somos todos negros e condenados à morte. Incrível também a semelhança guardada entre a burguesia de antanho e a nossa high society. Aparências, futilidades e nada mais que a verdade.

A peça tem cenas saborosas, como a transformação do Quincas homem no Quincas cachorro usando o simples manuseio do chapéu. Apesar de haver um protagonista em cena, os atores se equivalem. A música pega o espectador pelo ouvido de início, mas peca pelo exagero. O tema motivou um longo debate com os artistas após a sessão, no Barracão Clowns. Também faltou explorar mais a história do cachorro, ótima sacada de Machado que simplesmente sumiu de cena. Valeu como ensaio e introdução. Mas é um começo.

* Texto produzido por Rafael Duarte no âmbito do Laboratório de Crítica do Festival O Mundo Inteiro É um Palco – Ano II, realizado pelo grupo Clowns de Shakespeare. A crítica também foi publicada no site TeatroJornal, do crítico Valmir Santos: http://teatrojornal.com.br/2014/12/o-homem-de-cor/

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