BRECHT EM TEMPOS PÓS-DRAMÁTICOS

Conversa de Márcio Marciano com alunos do curso de Artes e Mídia da UECG (Universidade Estadual de Campina Grande) – Novembro/2009.

Vou começar nossa conversa com algumas perguntas simples: será que Brecht tem alguma utilidade hoje? Será que podemos extrair de seu pensamento, de seus poemas ou peças algum ensinamento que nos ajude a compreender o espírito do tempo? Será que vale a pena vasculhar em sua obra indicações de como agir nos dias atuais? Enfim, será que o poeta e dramaturgo alemão tem alguma coisa a nos dizer, a nós artistas e cidadãos comuns?
As perguntas parecem óbvias, mas são difíceis de responder. Antes de tudo é preciso esclarecer para nós mesmos o que entendemos por “espírito do tempo”; qual a nossa compreensão sobre os dias atuais. Em suma, o que desejamos e o que podemos ouvir de Brecht?
Uma leitura superficial de um jornal qualquer, alguns minutos diante da TV ou de algum site de notícias é suficiente para termos a noção da complexidade e da diversidade dos tempos que correm, das distintas realidades a que estamos expostos ou nas quais estamos submersos.
De um lado, as imagens do terrorismo de estado norte-americano no Irã e no Afeganistão, a miséria criminosa e secular de um continente inteiro como a África, o derretimento da calota polar, o desmatamento da Amazônia, o grande negócio do tráfico humano, de drogas e de armas, com seus agentes engravatados, travestidos de políticos, a ciranda financeira das bolsas, a solidão, o medo e a violência das grandes metrópoles etc.
De outro, os avanços impensáveis da robótica e da informática, as maravilhas do consumo e do conforto, os paraísos artificiais criados pela medicina, pelo cinema e pela publicidade.
Brecht dizia que os temas para as novas peças estão nas páginas dos jornais, e que novos assuntos exigem formas novas. Ele fazia a defesa da narrativa, de um teatro épico-dialético contra a forma superada do drama burguês, com seus artifícios ilusionistas. Para ele, era preciso pôr em cena os mecanismos de sujeição ao Capital, “desnaturalizar” sua influência sobre o homem comum, para que este pudesse compreender e assumir seu papel central na luta de classes. Esse seria por excelência um tema atual.
Se considerarmos o que afirma parte da crítica contemporânea, esse Brecht revolucionário, afeito ao desmanche grosseiro das aparências para revelar os mecanismos da exploração do homem pelo homem está morto e enterrado, sem chances de ressurreição, uma vez que não existe mais no horizonte histórico a utopia da Revolução.
Entretanto, um outro Brecht, mais lírico e sutil, hábil criador de imagens poéticas, exímio observador das filigranas do comportamento humano, este sobrevive apesar de os tempos não estarem propícios para quem utiliza o Teatro com o intuito pedagógico de narrar histórias exemplares.
Se essa crítica tiver razão, então o importante é reler Brecht, retirando-o do campo sangrento dos antagonismos de classe, para fazê-lo habitar o universo imaterial dos afetos privados. Talvez assim, a escritura poética brechtiana recobre sua potência e restabeleça o diálogo com a contemporaneidade.
Segundo essa visão, vivemos em tempos pós-dramáticos, tempos em que devido à fragmentação absoluta da subjetividade, da falência das utopias e da impossibilidade de uma visão totalizadora da realidade, não é mais possível ou realmente produtivo pensar a cena contemporânea em termos de ação dramática.
E Brecht, ainda segundo essa crítica, apesar de sua contraposição à estética do drama, é ainda dramático, já que se vale de personagens e fábulas em sua dramaturgia, destinada a criar uma cosmovisão que reflita em chave crítica a realidade do mundo em que vivemos.
Como dizem esses teóricos, não é mais plausível colocar em cena personagens envolvidos em acontecimentos e, através deles, construir sentido e pensamentos que provoquem no público a necessidade de produzir um juízo crítico, uma vez que já não é mais aceitável pensar a realidade como única, sendo sua percepção ao mesmo tempo múltipla e parcial.
Assim, uma vez que perdeu essa capacidade de apreensão e de intervenção pública e coletivizante sobre a realidade, caberia ao Teatro hoje, modestamente, criar micro-comunidades provisórias e nelas interferir não mais como tribuna onde os grandes temas são discutidos, cabendo ao público o papel de juiz, mas como tentativas negociadas de convívio e coabitação, de forma a apagar a fronteira que separa o público da cena, com o intuito de gerar uma “situação” de intercâmbio poético e político.
Dessa forma, essas situações proporcionadas ao espectador enquanto jogo cênico se efetivariam como intercâmbio sensível, como manifestação de co-presenças em ação mútua e recíproca, de modo a se resgatar para o teatro seu componente ritualístico. Não necessariamente religioso, mas social e afetivo. Ficando a reflexão crítica sobre essa experiência para um momento posterior.
Embora reconheça que no momento histórico atual não existam condições objetivas para o projeto revolucionário que pautava o Teatro de Brecht. Embora também reconheça a dificuldade de uma apreensão totalizante da realidade que nos envolve, penso que é necessário ouvir o que Brecht tem a nos dizer, para além dos temas poéticos que alimentariam as coabitações provisórias, para além das reverberações líricas sobre a condição humana, e que diz respeito à função transformadora da realidade social que o Teatro possui desde sua origem.
Não quero com isso invalidar as experiências da cena contemporânea, mas ao contrário, partindo justamente de seus pressupostos, que são os da fragmentação e multiplicidade reivindicar para o Teatro, sua sempre renovada capacidade de apreender as contradições da realidade social – que não é única, diferentemente do que pensavam os defensores do proletariado como vanguarda homogênea e revolucionária – mas vária e complexa.
E defender a utilidade de Brecht menos pelo seu discurso político do que pelo método de apropriação da matéria social que alimenta sua dramaturgia. Estou me referindo à dialética e ao seu poder de revelação da lógica do inimigo.
O fato é que a falência do projeto revolucionário não significou o desaparecimento da luta de classes. Ela está posta, hoje mais do que nunca e é preciso desmascarar seus escamoteadores.
Se a dificuldade de nomear e personalizar o inimigo hoje é infinitamente maior do que nos tempos de Brecht, devido à sua capacidade de se multifacetar, isso não diminui o estrago que ele causa. Portanto, é preciso “desnaturalizar” sua ação, como recomenda o dramaturgo alemão, para compreender sua lógica e, quem sabe, promover o confronto aberto ao menos no campo simbólico.
Evidentemente que apenas reconhecer sua prática não basta, é preciso inventar no âmbito da forma artística modos de confrontação efetivos, o que hoje parece impensável, tamanha sua abrangência e força de persuasão.
Nesse sentido, talvez o Brecht das peças didáticas tenha ainda muito a dizer. Não pelo que efetivamente diz – temas relacionados à militância revolucionária –, mas pelo modo como propõe a experimentação do público – um público de aprendizes da prática social transformadora – frente ao jogo revelador dos mecanismos de opressão e espoliação.
Nesse sentido é possível pensar a coabitação proposta pela cena contemporânea, sua ênfase ao jogo da co-presença, a partir de uma perspectiva brechtiana, de modo a revelar a condição de classe dos envolvidos, ator e público, mesmo que não mais nos termos clássicos designados por Marx.
Para finalizar, gostaria de enfatizar o óbvio: independentemente do experimentalismo da cena contemporânea, necessário para que o Teatro se renove e mantenha seu poder de comunicação com o público, ainda que seja o público restrito das salas e de espaços alternativos, o Teatro, nos ensina Brecht, continua a ser um poderoso instrumento de esclarecimento popular.
Dentre as múltiplas facetas da realidade social, existe aquela que se refere à grande maioria da população brasileira, e que carece de uma cena com alto poder crítico, que revele mais diretamente, através de histórias exemplares, com humor e inteligência a criminosa exploração do homem pelo homem.
Para esse público popular, no qual me incluo e com o qual tento dialogar artisticamente, a obra de Brecht é não apenas útil como atualíssima.

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