AS FICHAS SIMBÓLICAS DO “MILAGRE BRASILEIRO” por Augusto Magalhães

 
Posicionados sobre o palco, tal qual peças de um mesmo jogo, público e elenco interagem como personagens de uma única história. Mais do que nunca, a certeza de que somos brasileiros. De que passamos por modelos de família e padrões a serem seguidos em determinado espaço, determinada época, determinada imposição de atos e fatos. O Coletivo Alfenim de Teatro, com o espetáculo “Milagre Brasileiro” consegue operar o milagre de fazer cada brasileiro olhar para si próprio, para dentro de sua alma, e buscar respostas para uma indagação que nos persegue há mais de quatro décadas: o que aconteceu conosco?
 
Num primeiro momento, em uma análise emotiva e precipitada, eu diria que já vi este filme antes, dado o tema escolhido pelo diretor Márcio Marciano. No entanto, não vou cometer esse deslize. Os “anos de chumbo” levados à cena por Marciano trazem um olhar transversal sobre a ditadura e foge da linearidade comumente atribuída a produções do tipo. Levando-se em conta o excelente desempenho dos atores, cujo trabalho em uníssono evidencia a harmonia do Coletivo Alfenim, creio que injusto seria nomear atuações ou classificá-las.
 
Mesmo assim, embora possa parecer contraditório, um registro precisa ser feito: a atriz Zezita Mattos, do alto de sua experiência, ocupa a cena com uma presença imperiosa no palco. Ora uma velha sisuda, com olhar rancoroso; ora uma mulher da vida, com sorriso maroto, Zezita nos dá uma aula de interpretação de modo singelo, transparente, desnudo, bonito de se ver. Outro momento gratificante é ver a sintonia da atriz com o ator Daniel Porpino, que se entrega à cena e, por isso, a faz parecer verdadeira. A voracidade com que o ator devora um prato de leite pode remeter a conotações diversas, mas evidencia o simbolismo sugerido por uma cena construída com esmero.
 
Aliás, fichas simbólicas marcam o espetáculo em vários momentos. A falta de uma dramaturgia mais consistente – permita-me expressar essa opinião – é superada pela evidente capacidade do diretor em costurar histórias. “Milagre Brasileiro” é uma seqüência de histórias e momentos distintos que foram despedaçados, vidas que foram estraçalhadas, mas que encontraram encaixe na montagem de Márcio Marciano. É essa forma de encaixar as peças que supera a ausência do texto dramático e que, de certa forma, torna o espetáculo interessante. Não fosse assim, talvez tivesse caído em armadilhas de jograis ou discursos vazios. Longe disso, o Alfenim busca refúgio no “teatro desagradável” de Nelson Rodrigues e vai até os discursos de “Antígona” para se fundamentar enquanto espetáculo.
 
As poucas falas, ou o bem sucedido jogo de palavras de “Milagre Brasileiro” se complementa com a harmonia perfeita da música do espetáculo. A começar pelo som instigante de escovas de dente tilintando em copos de vidro, as composições de Diego Souza, Márcio Marciano, Paula Coelho e Wilame AC vão tomando conta do clima até chegar a peças tocadas ao piano, viola e violoncelo. A música, cuja direção é de Wilame AC, dialoga muito bem com o espetáculo e cria mais um ponto positivo no contexto geral da encenação.
 
Seria uma montagem brechtiana? Creio que sim, já que consigo enxergar em “Milagre Brasileiro” o distanciamento proposto por Bertolt Brecht. Segundo Brecht “distanciar um acontecimento ou um caráter significa antes de tudo retirar do acontecimento ou do caráter aquilo que parece óbvio, o conhecido, o natural, e lançar sobre eles o espanto e a curiosidade”. (Brecht apud Bornheim, 1992:243).
Pedaços de histórias quando bem dirigidos podem despertar curiosidades e se transformar em histórias completas. Assim é “Milagre Brasileiro”. Um espetáculo que mostra um Brasil feito de perseguições e aniquilações, mas um Brasil que idolatra o futebol e não vive sem o samba. O retrato se completa com o tripé ditadura-família-igreja, cuja presença no espetáculo é bastante forte. Para os que passam dos 40, um espetáculo do Brasil que dizia “Ame-o ou deixe-o”; para os outros, as portas abertas para o passado. Para concluir, prefiro recorrer às falas dos próprios personagens: “Os espelhos foram espedaçados…Vão embora. Uma voz falará por mim… Uma voz humana”. “Quando a história é suprimida, o que resta ao teatro?”
 
Augusto Magalhães é graduado em Jornalismo, Economia e Educação Artística (Artes Cênicas), com especialização em Crítica do Ensino das Artes Cênicas e mestrado em Sociologia pela UFPB.
 
FONTE: http://www.teatropb.com.br/index.php

Há 2 comentários deixados Veja o comentários

  1. Edceu Barboza /

    Estou louco para assistir "Milagre Brasileiro"…Sou admirador do trabalho do Coletivo Alfenim desde que vi "Quebra Quilos" em sua passagem pela Mostra SESC Cariri de Cultura. Até hoje canto “(…) dizia o velho humanista o homem é a medida de todas as coisas (…) hoje esta tudo mudado as coisas é que são a medida do homem (…)" Sucesso para todos do Coletivo… Aguardo vocês no Ceará_Cariri!

  2. Coletivo de Teatro Alfenim /

    Edceu,Obrigado por sua atenção ao postar um comentário em nosso blog.Encerramos recentemente a nossa primeira temporada com o MILAGRE BRASILEIRO.A repercussão do espetáculo foi muito positiva, o que indica que temos um caminho bastante promissor a ser trilhado.Estamos ansiosos para participar de mais uma edição da Mostra SESC Cariri de Cultura, um evento dos mais significativos no que se refere a intercâmbio de experiências entre grupos de teatro.Quando estivermos aí, teremos oportunidade para conversarmos sobre uma série de questões.Um grande abraço, amigo,e até breve!COLETIVO DE TEATRO ALFENIM

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