APÓS O DRAMA:ALFENIM MONTA A DITADURA MILITAR por Giovanni Queiroz

Alguns mortos não podem ser esquecidos; alguns mortos se recusam a morrer. Alguns fatos não podem ser esquecidos, alguns fatos recusam o esquecimento. Mas, vira e mexe, interessa para alguns que não se falem de determinados mortos, vira e mexe interessa a alguns que não se remexam em certos fatos, interessa a alguns que o passado seja esquecido, que a história seja emudecida, que alguns mortos restem insepultos.
Essa história é antiga. Todos conhecemos a discussão de Antígona para enterrar Polinices, contra sua irmã Ismene, contra o rei Creonte; contra a lei, um direito mais antigo, um direito divino, irmanado da própria Justiça se interpõe. Desde então sabemos que lei (nomos) e justiça (dike) não se assemelham por completo e que, em muitos casos, há que se recorrer à justiça por cima de qualquer lei e para além de qualquer poder.
No Brasil, no nosso passado recente, cento e quarenta e quatro mortos restam insepultos; chamam-os de desaparecidos políticos.
É para contar essa história que o grupo Alfenim monta “Milagre Brasileiro”.
A peça começa já lembrando a nós dos terroristas procurados. Estamos já em plena ditadura, nos Anos de Chumbo do Governo Médici. Mas não se vê nos cartazes as fotos dos nossos desaparecidos políticos. Vê-se nas fotos os atores, com exceção da foto de Zezita Matos.
Tal qual uma dama do teatro, a personagem de Zezita Matos pede que esqueçamos aquilo, que não mexamos na memória, que saiamos da cena (os espectadores compõem a cena), que a deixemos com suas cinzas, com seu luto, com sua dor, com sua máscara, com o esquecimento que nos entorpece – e que entorpece nossa literatura recente, que entorpece nossos governantes, que entorpece uma ou duas gerações inteiras. Lá pelas tantas da peça uma frase chama a atenção: “quando a história é subtraída, o que resta ao teatro? Narrar-se a si mesmo?”
E então se compreende todo o propósito da encenação. Teatro é narração – nada mais brechtiano! E é ao teatro de hoje que a peça é dirigida: é o teatro que também esqueceu seus mortos e desaparecidos, é ao teatro que se exige que se fale de novo desse nosso passado recente.
Uma primeira fala dos atores já nos lembra tudo isso – que a peça quer dar voz àqueles que desapareceram: “uma voz falará por mim” dizem os atores, baixinho, a cada um de nós espectadores. E também estes atores, quase ao final da peça, novamente exigem de nós, que lhes façamos um rosto: “eu preciso desse rosto – um rosto teatral”. Cabe ao teatro dar voz a quem querem emudecer de vez.
E aqui se liga o projeto do grupo Alfenim, que vem falando para nós, da Paraíba, de nosso passado que teimamos em esquecer; aqui a encenação de agora se liga com a de “Quebra-Quilos”.
Agora compreendemos porque os atores é que emprestam suas fotos como terroristas. A eles é exigido que encenem nossa memória, a eles é exigido que encenem nossos mortos.
Ao trabalho da memória, que inicia a peça com o grito de Zezita Matos (linda, fantástica, dando todo o tom da peça – lá pelas tantas um ator assim se refere “é uma velha lamurienta [que] pensa que é atriz”) e com o grito de Zezita Matos termina (“Vão embora!”), liga-se todo um outro, a encenação propriamente dita, a narração, a peça mesmo – a família Araújo, pai funcionário público, mãe dona de casa, duas filhas, uma sogra, tudo bem comportado, bem posto, em cenas de álbum de família, em suas máscaras, emergindo de um quadrado, de uma moldura, de um quadro, mostrando o que o “milagre brasileiro” foi para a classe média que apoiou a ditadura. Enquanto bens de consumo eram abundantes, marchas e desfiles aconteciam – pela Pátria, por Deus, pela liberdade (ô palavra mais vilipendiada). E também, nesse mesmo momento, para alguns, “as portas do inferno” se abriam. Torturas, desaparecimentos, execuções, banimentos e toda a sorte de danos eram impingidos àqueles que se recusavam participar do “Álbum de Família”. Muitos viveram também uma “descida aos porões” – há pouco tempo, um jornalista dos grandes jornais ensinava que não há mais sentido em se falar em “porões da ditadura”, alegando que a expressão é demodê – lembro, de novo, de Octavio Paz que dizia que “quando se instala uma corrupção, ela se manifesta em primeiro lugar é na linguagem”. Discutir narração e linguagem bem que seria tema para outro texto.
E esse momento é o corpo quem fala, é o corpo quem chora, quem sofre, quem grita. “E no meio de tudo isso, o frágil corpo humano” dizia Walter Benjamin a propósito da Primeira Guerra Mundial e, no meio de tudo, tinham somente o frágil corpo humano – que doía na tortura, que doía ao tomar um banho, ao escovar um dente, ao repetir um exercício (como dói também o corpo do ator repetindo milhares de vezes a mesma cena, o mesmo gesto, a mesma fala, nas mãos do diretor), que doía ao ter que falar de novo, repetidas vezes, a mesma história, que subtraía e se traía contando a mesma história, que dói, ainda, insepulto, a nos acusar do esquecimento, da banalização (“nem foi mesmo uma ditadura, mas talvez uma ditabranda”, dizia a Folha de São Paulo). O corpo (tudo o que muitos pedem é somente um corpo!) que ainda dói com a mudança de tom perpetrada no Programa Nacional de Direitos Humanos 3 por pressão da Igreja, dos ruralistas, dos meios de comunicação, do Ministro da Agricultura, dos Militares, do Ministro da Defesa. Um corpo que ainda pede que demos um brilho, que tracemos um contorno, que marquemos um rosto, que pintemos a boca, que façamos, afinal, de um qualquer, um ator. “Eu preciso desse rosto, um rosto teatral”.
Quando a história é subtraída, não cabe ao teatro narrar a si mesmo, cabe ao teatro resgatar a história. Isso já dizia Benjamin da tarefa do historiador. Isso diz o grupo Alfenim da tarefa do teatro.
 
(Prof.Giovanni Queiroz – UFPB)

Apenas um comentário deixado Veja o comentários

  1. Gilsa Elaine /

    Gostaria de saber se tenho como comprar os ingressos antecipadamente, uma vez que vou com um grupo assistir à peça nesta sexta-feira próxima e queria garantir as entradas.Atenciosamente,Gilsa, professora do Geo e das Lourdinas.

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