Apontamentos sobre teatro de grupo*, por Márcio Marciano

Diante da necessária pergunta: “O que é fazer teatro de grupo?” arrisco algumas hipóteses retiradas de minha modesta e renitente determinação de praticar erros no varejo em busca de pequenos acertos no atacado.
Sendo assim, tento responder à indagação dizendo:
Fazer teatro de grupo é:

Assumir o compromisso perante os demais companheiros de trabalho de que o fazer teatral deve consistir no exercício diário da construção de uma utopia.
É fazer valer o desejo, a potencialidade e a liberdade individual em prol de uma ação coletivizante.
É entender que o DNA de qualquer que seja o grupo está impresso nas circunstâncias históricas de sua formação, ainda quando essa formação esteja em permanente processo de ajuste e modificação.
É entender que o DNA de qualquer que seja o grupo não se reduz a declarações de intenção estética.

Fazer teatro de grupo é:
Inventar um espaço de exceção permanente.
É não esquecer que a suposta crise das ideologias é a afirmação categórica de uma ideologia dominante.
É reconhecer que os grupos de teatro surgem como espaço de resistência contra todas as formas de totalitarismo: o totalitarismo dos bons sentimentos, o totalitarismo dos valores eternos, o totalitarismo da subjetividade burguesa, e o mais perverso de todos os totalitarismos, o totalitarismo da mercadoria.

Fazer teatro de grupo é pôr em prática o desejo de:
Revolucionar a si mesmo;
Revolucionar o Outro;
Revolucionar a ordem social injusta, em favor da construção de um mundo habitável para todos.
É ter consciência de que na Arte, assim como na política e na vida, a omissão aos desmandos do capital é adesão à sua lógica perversa.

Fazer teatro de grupo é:
Não se deixar levar acriticamente por termos aparentemente anódinos como troca, compartilhamento e similares.
Não esquecer que esses termos comportam uma carga semântica ambígua: podem significar o escambo ou a partilha de um produto acabado, que tem valor de troca, em detrimento de um possível valor de utilidade: em suma, termos que podem trair propósitos conservadores, maquiados de reformismo.
Fazer teatro de grupo é:
Dar-se ao exercício franco do intercâmbio crítico, e ao risco do experimento estético na contramão das tendências universalizantes.
É não tentar harmonizar os indivíduos, mas produzir fissuras na recepção da obra artística capazes de revelar as tensões da ordem social.

Fazer teatro de grupo é:
Ter o compromisso de revelar a produção científica da desordem como fator ordenador do sistema.
É lutar contra o mercado com as armas do mercado.
É ter a sabedoria de que numa guerra, quando se tomam as armas do inimigo, essas armas devem ser usadas contra o inimigo.

Fazer teatro de grupo é:
Lutar contra a institucionalização da Arte e do fazer artístico.
É ter a compreensão de que é preciso construir um projeto artístico que ultrapasse a mera realização do produto artístico.
É não perder de vista que o para quê deve sempre orientar o quê.
Fazer teatro de grupo é, sobretudo, ter sempre em mente que:
“A história da sociedade até hoje é a história da luta de classes.”

Texto escrito por Márcio Marciano para o livro “Projeto Teatro Piollin: Diário de bordo.”

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