A sensação de ser esquecido, por Erickaline Lima.

BREVIDADES - I

Que tal conversarmos um pouco? Sente-se, fique à vontade.

Tão íntimo como entrar na casa de alguém, sentar em uma mesa e ali confidenciar fatos de sua vida. O monólogo Brevidades, do Coletivo de Teatro Alfenim, abre as portas para receber o público numa acolhida maternal. A senhora sentada em uma das mesas a tomar seu chá com biscoitos de nata, não aparenta tranquilidade, talvez certa melancolia. A vida deu os anos que carrega sobre si e muitas histórias para contar.

O público adentra as histórias a ponto de se misturar a elas, a personagem nomeia algumas pessoas, sobrevém Marta. Confunde-as, depois diz não conhecê-las. As lembranças invadem, em seguida somem no silêncio, enquanto o olhar procura em meio ao público algum rosto conhecido e não encontra.

O monólogo com dramaturgia e direção de Márcio Marciano apresenta a personagem com sintomas do Mal de Alzheimer – interpretada por Zezita Matos. Este tipo de representação teatral, em que somente um ator encontra-se em cena, de certo modo favoreceu a exploração da temática. No cenário, mesas e cadeiras bem arrumadas à disposição do espectador, uma espécie de cama no meio do espaço cênico que em nenhum momento foi utilizada, talvez a intenção fosse mesmo rejeitá-la. Pois, a personagem não se reconhece cansada ou doente.

Diante de um clima tão acolhedor, a participação do espectador não poderia deixar de ser algo crescente, a atriz joga com o público e a verborragia corriqueira em monólogos não se torna cansativa, mas nos instiga na busca por compreender a narrativa descontínua. Aliás, o espectador é literalmente movido a fazer parte da dramaturgia, conversar com a personagem. Entretanto, tal companhia logo é arrastada pelo esquecimento.

O espetáculo nos aproxima das sensações comuns aos de pessoas que convivem com idosos acometidos por essa doença neuro-degenerativa. O sofrimento de ser esquecido envolve feito noite fria, e afasta repentinamente a sensação de acolhida maternal em que outrora fomos recebidos.

* Texto produzido no âmbito do Laboratório de Crítica, com Valmir Santos, durante o Festival O Mundo Inteiro É um Palco 2014, realizado pelo grupo Clowns de Shakespeare. Sobre a autora:  Erickaline Lima é formada em teatro pela UFRN e atualmente desenvolve pesquisa sobre crítica de arte no Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da UFRN. Para ler mais críticas sobre Brevidades e outros espetáculos que participaram do festival, acesse: O Pantim online – Caderno de Críticas: http://www.omundointeiroeumpalco.com/#!notcias/cdep

Há 2 comentários deixados Veja o comentários

  1. leide jane /

    Quando? Onde? Quanto?
    Louca para assistir! Convivo com minha avó, minha doce guerreira avó… Triste vê-la com esta doença. Preciso assistir, acho que não conseguirei conter minhas lágrimas.

    1. Gabriela Arruda /

      Querida Leide Jane, apresentamos em Natal, no festival O Mundo Inteiro é um Palco. Em 2015, faremos uma temporada em João Pessoa. Vamos informar aqui no blog e na página do Coletivo no facebook: Coletivo de Teatro Alfenim
      Grande abraço

Deixe uma resposta

Responda para enviar * Time limit is exhausted. Please reload the CAPTCHA.

                 
%d blogueiros gostam disto: