‘A MEDIDA DO COLETIVO DE TEATRO ALFENIM” por Valmir Santos

Os dois primeiros espetáculos do Coletivo de Teatro Alfenim (João Pessoa, 2006) conformam o pensamento artístico e crítico de seu idealizador, o diretor e dramaturgo Márcio Marciano. As encenações e os textos reavivam memórias embotadas da Paraíba e do Brasil e trazem boas perspectivas à capital rarefeita em pesquisa vertical e continuada. Terra onde Ariano Suassuna (1927) e Paulo Pontes (1940-76) semearam dramaturgias de referência. Sede de grupos como o Bigorna (1968) e o Piollin (1977), tão maturados como bissextos em suas criações.
 
Marciano é cofundador da Companhia do Latão (1996), na qual escrevia e dirigia em parceria com Sérgio de Carvalho. A convivência por dez anos, naturalmente, impregna os procedimentos estéticos e conceituais em Quebra-quilos, de 2008, e Milagre brasileiro, de 2010.
 
Em ambos os espetáculos, ficam patentes os recursos épicos e dialéticos, à maneira brechtiana, e o indisfarçável desejo de transcender as próprias amarras que o tempo denota.
 
Quebra-quilos recorta um episódio da história da Paraíba, transpõe com didatismo para a cena os fatos ocorridos na cidade de Campina Grande, em 1874, e o faz assumindo a fábula. Camponesas expulsas violentamente para o sertão, a viúva Joaquina e sua filha Floriana têm suas vidas entrelaçadas ao fogo cruzado do levante popular de feirantes num vilarejo onde as autoridades alteram o sistema métrico decimal – o quilo, o metro, o litro – para faturar com novos impostos.
 
Num exercício de aproximação: se em Auto dos bons tratos (2002), do Latão, Marciano e seus pares paulistas imprimiam humor e ironia à narrativa sobre o controle da mão de obra indígena no Brasil Colônia, em Quebra-quilos a fábula transcorre enquanto drama tão estruturante quanto. As figuras centrais trilham o coração do conflito até o desenlace trágico.
A dramaturgia em colaboração com os atores escancara como a valoração do homem é medida pela mercadoria, isso numa linha de tempo que apanha o país no crepúsculo do Império, a 25 anos da Proclamação da República (1899), para não dizer desde as capitanias. “A medida do homem é a coisa”, brada o texto, ecoando Pitágoras na medida de todas as coisas ou Brecht em Um homem é um homem.
 
E a fita métrica do espetáculo é dada pela organização de seus quadros. Pelo ritmo cadenciado das falas e das ações dos atores. O entra e sai ao pisar o quadrado cenográfico desenhado pelas gavetas de legumes, cereais, frutas e rapadura, aquilo que a terra dá, o homem planta e, não raro, ele mesmo tira a troco de sangue derramado.
 
O balé dos pés indo e vindo na demarcação territorial da cena, um estrado de madeira também ele a centímetros do chão, corrobora o efeito de distanciamento. O ator narra, dá voz e corpo à figura e depois se dirige a uma das cadeiras à margem, mas sempre compondo o plano de visão do espectador. Os espaços do visto e do narrado resultam orgânicos.
 
É esse intérprete ativo, vigilante na deixa e na presença “neutra” em cena, quem sustenta a engrenagem. Visto pela primeira vez em maio de 2009, na Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, e agora, em agosto, em temporada na Funarte, sempre em São Paulo, Quebra-quilos é tributário da potência dos atores em não representar, propriamente dito, e ainda assim convencer o público a fiar-se na história. A maneira como ela é contada, esquiva à identificação, não impede a emoção infiltrada no retrato contundente da violência contra a população explorada, firmando a convicção de que a riqueza propagada é para poucos.
 
O primeiro espetáculo do Alfenim – nome extraído de um doce típico à base de cana de açúcar, daí a determinação do coletivo em “quanto mais dura a rapadura, mais firme e delicada a consistência” – embute essa contradição de origem, a delicadeza no seio da brutalidade. Os aportes históricos e políticos dão vazão a um tratamento poético, um esforço de Marciano em traduzir em imagem (corporal, espacial) aquilo que a palavra confere em narração, diálogo e paisagens sugeridas. O traço artesanal de um tecido vermelho, a moldura cenográfica colorida no piso, a convicção e o carisma do elenco – substituições da versão anterior para a atual não subtraem energia –, tudo leva a uma teatralidade engajada a dizer por si e não sucumbir ao discurso. Um teatro do meio e não da mensagem.
 
Desde a abertura de Quebra-quilos, quando um narrador afirma que, doravante, vai agir feito criança, “inventar para entender o desengonço do mundo”, entreouvimos a voz de Marciano no picadeiro do circo que se ergue com palhaços degolados e a lona esburacada, conforme as asas da metáfora. Imaginamos, pois, um “desbravador” paulista em João Pessoa a arrebanhar artistas para a causa das novas práticas e pensamentos teatrais a partir do lugar em que pisam. Ou, em chave oposta, os “nativos” ampliando os horizontes de quem chega de longe e pode colher muito desse chão.
 
“CRÂNIO DA CONSCIÊNCIA”
 
 
No segundo trabalho, Milagre brasileiro, a tal lona esburacada encobre o ensolarado território nacional. Um projeto sobre a obscuridade. Para tocar a ferida exposta há mais de quatro décadas, “furo no crânio da consciência”: homens e mulheres desaparecidos durante a ditadura militar (1964-85). Seria pouco correlacionar os dois espetáculos pelas truculências colonial e contemporânea. O que salta em primeiro plano são as ambições de linguagem e de forma para jogar luz em porão no qual a sociedade brasileira – e, por extensão, a maioria dos artistas – não tem coragem de iluminar suas ossadas.
 
Não dá para invocar esses cadáveres sem incisão. Em se tratando da trajetória de Marciano, a abordagem de assunto tão explosivo não ofusca o ímpeto em experimentar, em explorar outras “línguas” para dizer a que veio. Inclusive a francesa, literalmente inserida como blague mordaz aos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade um tanto evaporados nesta era de extremos. A estratégia indicada é problematizar o signo da representação, as nuanças do naturalismo e do realismo já insinuadas em Quebra-quilos, para comunicar o estado de coisas.
 
“Vão embora!”, vocifera Zezita Matos, de largada, na voz e no olhar petrificadores de sua Antígona, coerente com a recepção antipassiva ao espectador que atravessou um corredor de fotografias de rostos ampliados e ouviu vozes nomearem os desaparecidos, os fantasmas que se farão presentes. O público adentra o espaço para ocupar as arquibancadas, uma de frente para a outra. É um espetáculo incômodo.
 
Em princípio, soa lugar-comum recorrer a Antígona para lembrar corpos insepultos. Mas logo se verá que o mito da heroína grega que enfrenta o poder autocrático pelo direito de enterrar o irmão serve como uma das antecâmaras. A dramaturgia encontra atalho em Nelson Rodrigues e uma de suas peças míticas e autodenominadas desagradáveis, Álbum de família, no rol das “obras pestilentas, fétidas, capazes, por si sós, de produzir o tifo e a malária na plateia”.
 
A interseção Sófocles e Nelson gera estranhamento que adensa aos poucos. A tradição, a família e a propriedade atemporais cristalizam-se no clã do coronel nordestino ou no tio de Antígona, o rei Creonte. Licença para pensar que Tebas não está tão longe de Taperoá, embaralhando símbolos, sonoridades, valentias e adestramentos em habitantes das cidades de ontem e de hoje.
 
Entusiasma notar em Marciano a liberdade de encenador que revela outras camadas nas palavras que ele mesmo escreveu. Milagre brasileiro o expõe em bem-vinda orgia criativa, arriscando-se abrir janelas como nos quadros familiares aparvalhados, de registro tragicômico, com parênteses para o teatro de animação, fantoches e máscaras de caveiras que mimetizam a derrisão.
 
Um contraponto negativo, porém, vem com a ênfase maniqueísta nas irmãs gêmeas da família subserviente ao pai coronel, como se o instinto de maldade fosse intrínseco às futuras gerações, aos algozes que virão. Apesar de jogar com o grotesco, a desesperança movediça é reforçada no instante em que as crianças crucificam a sua boneca tomando cuidado em ocultar a sessão de tortura dos olhos adultos.
 
O devaneio, de um lado, e o suporte factual da história do país, de outro, conduzem a um terceiro ponto: o das contradições. Colocadas em perspectiva, elas instauram a crítica. Um exemplo disso é a passagem do tricampeonato mundial de futebol pela seleção, em 1970, apenas alguns meses após o regime militar recrudescer com o decreto do Ato Institucional número 5.
 
Preciso nos silêncios, o espetáculo é permeado por uma espécie de cabaré dos mortos-vivos com o acompanhamento de dois músicos na percussão e ao piano. E um terceiro contraste vem da própria condição da recobrada democracia brasileira 25 anos após o regime de exceção. Ela vê a tortura de esguelha, ao contrário de Chile, Argentina e Uruguai. Tenta escapar à outra face da tortura disseminada no cotidiano de camburões, cadeias, morros, favelas, campos, shoppings e condomínios.
 
Para fundamentar em cena a liturgia de ideias que propõe, o Coletivo Alfenim possui artistas experientes e recém-iniciados no ofício, uma mistura sugestiva para instaurar a provocação. Mas há desníveis acentuados no elenco em Milagre brasileiro. Não vemos a apropriação da fala e das entrelinhas como em Quebra-quilos, do qual uma boa parte migrou.
 
A presença das atrizes e atores vem carregada do rigor da marcação, uma sombra que não deixa transparecer humanidade no olhar e na expressão do rosto do artista – mesmo quando sob o julgo de um carrasco em cena. Essa dimensão espreitada na primeira montagem tinha tudo para aflorar aqui, em formato teoricamente mais aberto, com sua dança pelos gêneros e jogos de representar acionando o espírito lúdico. Ao contrário, o que prevalece é o franzir da preocupação em dar conta da brincadeira inventada para tratar de tema sério.
 
As ousadas concepções do encenador e do dramaturgo traem a si mesmas quando não se permitem o “descontrole”; não confia a mesma pulsão autoral aos homens e mulheres que o traduzem em carne e osso. Nesses quatro anos de vivência em João Pessoa, Márcio Marciano cativou artistas locais para um projeto consistente. Quebra-quilos dá notícias do encantamento dos integrantes do grupo envolvidos. Milagre brasileiro expõe o diretor e o dramaturgo avançados em suas rubricas e, no entanto, isolados na dianteira, na cabeça de Marciano a negociar com a realidade gritante, os contrastes de produção e de criação aos que perseveram fazer teatro na Paraíba, no Nordeste. Dessa precariedade, o Coletivo de Teatro Alfenim já lapidou preciosidades. Seu futuro está inscrito na generosidade de ambas as partes: o diretor paulista, pecha que lhe rende louros na proporção que lhe custa um bocado, e os artistas de João Pessoa em suas infinitas territorialidades e sotaques universais.
 
fonte:
http://www.teatrojornal.com.br/v1/index.php?option=com_content&view=article&id=596:a-medida-do-coletivo-de-teatro-alfenim&catid=25:contracena&Itemid=30

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